Tenho medo da infelicidade branca e leve que não mostra os dentes, essa que veste o dia de um plástico transparente e lambe os nossos rostos sem que percebamos. Tenho medo da tristeza sem grito e sem desespero que nos cobre de nublado e ordinariza as cores, uma a uma, até que elas não mais se diferenciem. Tenho medo disso que invade manso e silencioso e quer estar despercebido para nos convencer que a vida é esse avesso de estar vivo, este contrário de viver, que quer ser este esgar de alívio no meio da dor inderrogável. Tenho medo de ser alfabetizada pela descrença, pelo triste, pelo esquecimento, pelo apático. Tenho medo de ficar paralítica e embrutecer calada com os olhos vazios e os braços habitados de um oco profundo, pensando que espero a absolvição do tempo, mas um dia perceber que fui-me embora de mim.
Tenhamos medo, portanto, tenhamos medo de que nos fujam das mãos as delicadezas do pão, da terra, da pele e dos cabelos. Tenhamos medo de que nos desertem dos olhos o brilho do açúcar, das lágrimas, da emoção do encontro, da tristeza e da solidão. Tenhamos medo de que nos falte na língua o gosto de um beijo, a palavra terna, o segredo partilhado e que disso não nos reste nem a lembrança dos nossos beijos guardados. Tenhamos medo de que nos abandone o corpo o calor do abraço, a ardência do desejo, a ânsia incompleta e premente de se entregar, de se rasgar, de se deixar invadir. Tenhamos medo, muito medo. E façamos do medo nosso anti-escudo, nosso infinito permear, reinventemos o medo para aceitá-lo e acolhê-lo e o tornemos coragem. Dispamos o medo, formidável e monstruoso, abracemos o medo e tenhamos o medo em nós, no mais fundo de nós. E sejamos medrosos e humanos, ínfima e infinitamente humanos, e nos agarremos desesperadamente à nossa humanidade cheia de dores e risos, cheia de tropeços e abismos e asas e altitudes e amplidões, cheia de vida para ser vivida do começo ao fim, de todas as formas.
Escrito por Patrícia Antoniete, na Revista Paradoxo> http://revistaparadoxo.com.br
sábado, 5 de julho de 2008
segunda-feira, 16 de junho de 2008
O Batizado*
Sérgio, meu filho, me fez um pedido estranho. Pediu-me que preparasse um ritual para o batismo da Mariana, minha neta. Eu lhe disse que, para se fazer tal ritual, é preciso acreditar. Eu não acredito. Já faz muitos anos que as palavras dos sacerdotes e pastores se esvaziaram para mim, muito embora eu continue fascinado pela beleza dos símbolos cristãos, desde que sejam contemplados em silêncio.Ele não desistiu e argumentou: “Mas você fez o meu casamento.“ De fato. Lembro-me de como ele encomendou o ritual: “Pai, não fale as palavras da religião! Fale só as palavras da poesia!“ E assim foi. Foram textos do Cântico dos Cânticos, poema erótico da Bíblia, que deixa ruborizadas as faces dos beatos e beatas: “Teus dois seios são como dois filhos gêmeos de gazela! Teus lábios gotejam doçura, como um favo de mel, e debaixo da tua língua se encontram néctar e leite...“ Divirto-me pensando na cara que fariam Papa e bispos se lessem esses textos... Seguiram-se textos do Drummond, do Vinícius, da Adélia - tudo terminando não com a chatíssima Marcha Nupcial, mas com a Valsinha, do Chico, ocasião em que os convidados, moços e velhos, pegaram os seus pares e trataram de dançar. Foi bonito. Quando a coisa é bonita a gente acredita fácil.Lembrei-me, então, de um trecho do livro Raízes negras - onde se descreve o ritual de “dar nome“ ao recém-nascido, numa tribo africana.Omoro, o pai, moveu-se para o lado de sua esposa, diante das pessoas da aldeia reunidas. Levantou então a criança e, enquanto todos olhavam, segredou três vezes nos ouvidos do seu filho o nome que ele havia escolhido para ele. Era a primeira vez que aquele nome estava sendo pronunciado como nome daquele nenezinho. Todos sabiam que cada ser humano deve ser o primeiro a saber quem ele é. Tocaram os tambores. Omoro segredou o mesmo nome no ouvido de sua esposa, que sorriu de prazer. A seguir foi a vez da aldeia inteira: “O nome do primeiro filho de Omoro e Binta Kinte é Kunta!“ Ao final do ritual, após desenvolvidas todas as suas partes, Omoro, sozinho, carregou seu filho até os limites da aldeia e ali levantou o nenezinho para os céus e disse suavemente: “Fend kiling dorong leh warrata ke iteh ted“:“Eis aí, a única coisa que é maior que você mesmo!“Essa memória me convenceu e tratei de inventar um ritual de “dar nome“, já que nenhum eu conhecia que me agradasse.Organizei o espaço do living. Empurrei a mesa central, baixa, na direção da lareira. À cabeceira coloquei um banquinho velhíssimo - ali a Mariana se assentaria. Ao lado, duas cadeiras, uma para o pai, outra para a mãe. Na ponta da mesa, uma grande vela. É a vela da Mariana, vela que a acompanhará por toda a sua vida, e que deverá ser acesa em todos os seus aniversários. Ao lado da sua vela, duas velas longas, coloridas. E, espalhadas pela sala, velas de todos os tipos e cores. Na ponta da mesa, ao lado da vela da Mariana, um prato de madeira com um cacho de uvas.Reunidos todos os convidados, começou o ritual. Foi isso que eu disse: “Mariana: aqui estamos para contar para você a estória do seu nome. Tudo começou numa grande escuridão.“ As luzes se apagaram enquanto, no escuro, se ouvia o som da flauta de Jean Pierre Rampal.
“Assim era a barriga da sua mãe, lugar escuro, tranqüilo e silencioso. Ali você viveu por nove meses. Passado esse tempo você se cansou e disse: ‘Quero ver luz!‘ Sua mãe ouviu o seu pedido e fez o que você queria. Ela ‘deu à luz‘. Você nasceu.“A mãe e o pai da Mariana acenderam então a vela grande, que brilhou sozinha no meio da sala.“Veja só o que aconteceu! Sua luz encheu a sala de alegria. Todos os rostos estão sorrindo para você. E, por causa desta alegria, cada um deles vai, também, acender a sua vela.“Aí o padrinho e a madrinha acenderam as velas longas coloridas, e os outros todos acenderam, cada um, uma das velas espalhadas pela sala.À chegada dos convidados eu havia dado a cada um deles um cartãozinho, onde deveriam escrever o desejo mais profundo para a Mariana. Continuei:“Você trouxe tanta alegria que cada um de nós escreveu, num cartãozinho, um bom desejo para você. Assim, pegue esta cestinha. Vá de um em um recolhendo os bons desejos que eles escreveram. Esses cartõezinhos, você os vai guardar por toda a sua vida...“E lá foi a Mariana com a cestinha, seus grandes olhos azuis, de um em um, sendo abençoada por todos.“Todos deram para você uma coisa boa“, eu disse depois de terminado o recolhimento dos cartões. “Agora é a hora de você dar a todos uma coisa boa. Você é redondinha e doce como uma uva. Esta é a razão para este cacho de uvas. E é isso que você vai fazer. Seus padrinhos vão fazer uma cadeirinha e você, assentada na cadeirinha, vai dar a cada um deles um pedaço de você, uma uva doce e redonda...“E assim, vagarosamente, a Mariana celebrou, sem saber, esta insólita eucaristia: “Esta uva doce e redonda é o meu corpo...“Terminada a eucaristia, eu disse à Mariana:“Agora, chegando ao fim, cada um de nós vai dizer o seu nome. Preste bem atenção. O nome é um só. Mas cada um vai dize-lo com uma música diferente. Porque são muitas e diferentes as formas como você é amada.“E assim, iluminados pela luz das velas, cada um dos presentes, olhando bem dentro dos olhos da menina, ia dizendo: “Mariana“, “Mariana“, “Mariana“, “Mariana“...Aqueles que olhavam os olhos da Mariana puderam ver que, à medida que ela ouvia o seu nome sendo repetido, eles iam se enchendo de lágrimas...
“Assim era a barriga da sua mãe, lugar escuro, tranqüilo e silencioso. Ali você viveu por nove meses. Passado esse tempo você se cansou e disse: ‘Quero ver luz!‘ Sua mãe ouviu o seu pedido e fez o que você queria. Ela ‘deu à luz‘. Você nasceu.“A mãe e o pai da Mariana acenderam então a vela grande, que brilhou sozinha no meio da sala.“Veja só o que aconteceu! Sua luz encheu a sala de alegria. Todos os rostos estão sorrindo para você. E, por causa desta alegria, cada um deles vai, também, acender a sua vela.“Aí o padrinho e a madrinha acenderam as velas longas coloridas, e os outros todos acenderam, cada um, uma das velas espalhadas pela sala.À chegada dos convidados eu havia dado a cada um deles um cartãozinho, onde deveriam escrever o desejo mais profundo para a Mariana. Continuei:“Você trouxe tanta alegria que cada um de nós escreveu, num cartãozinho, um bom desejo para você. Assim, pegue esta cestinha. Vá de um em um recolhendo os bons desejos que eles escreveram. Esses cartõezinhos, você os vai guardar por toda a sua vida...“E lá foi a Mariana com a cestinha, seus grandes olhos azuis, de um em um, sendo abençoada por todos.“Todos deram para você uma coisa boa“, eu disse depois de terminado o recolhimento dos cartões. “Agora é a hora de você dar a todos uma coisa boa. Você é redondinha e doce como uma uva. Esta é a razão para este cacho de uvas. E é isso que você vai fazer. Seus padrinhos vão fazer uma cadeirinha e você, assentada na cadeirinha, vai dar a cada um deles um pedaço de você, uma uva doce e redonda...“E assim, vagarosamente, a Mariana celebrou, sem saber, esta insólita eucaristia: “Esta uva doce e redonda é o meu corpo...“Terminada a eucaristia, eu disse à Mariana:“Agora, chegando ao fim, cada um de nós vai dizer o seu nome. Preste bem atenção. O nome é um só. Mas cada um vai dize-lo com uma música diferente. Porque são muitas e diferentes as formas como você é amada.“E assim, iluminados pela luz das velas, cada um dos presentes, olhando bem dentro dos olhos da menina, ia dizendo: “Mariana“, “Mariana“, “Mariana“, “Mariana“...Aqueles que olhavam os olhos da Mariana puderam ver que, à medida que ela ouvia o seu nome sendo repetido, eles iam se enchendo de lágrimas...
*Texto escrito por Rubens Alves, publicado no site A casa de Rubem Alves.
Pelas águas do Recife
Diariamente passam por cima de suas águas adultos, crianças, vendedores ambulantes, comerciantes e letrados. De tanto observar a vida que passa num fluxo intenso, ele parece que se acostumou à situação de coadjuvante da história do Recife. Tornou-se um senhor velho e desdentado, que muitos só sabem da existência quando um tal de Catamarã corta suas águas cheio de gente de fala “esquisita”. Faz jus ao nome que em certa ocasião lhe deram, “Cão sem plumas”. O tal cão anda mesmo sem forças para latir, parece pedir com aqueles olhos tristonhos que alguém o faça o mais rápido possível.
É curioso é imaginar que no século XIX o mesmo Rio Capibaribe cedia suas águas para banhos aos domingos de famílias da Várzea, Poço da Panela, Ponte de Uchôa e Monteiro. O geógrafo Hugo Falcão, da UFPE, que escreveu uma tese acadêmica sobre o Rio Capibaribe na obra de João Cabral de Melo Neto, explica a importância que o Capibaribe tinha e/ou tem para o Estado.
1.Por quê falar do Capibaribe na sua tese?
É curioso é imaginar que no século XIX o mesmo Rio Capibaribe cedia suas águas para banhos aos domingos de famílias da Várzea, Poço da Panela, Ponte de Uchôa e Monteiro. O geógrafo Hugo Falcão, da UFPE, que escreveu uma tese acadêmica sobre o Rio Capibaribe na obra de João Cabral de Melo Neto, explica a importância que o Capibaribe tinha e/ou tem para o Estado.
1.Por quê falar do Capibaribe na sua tese?
Falar do rio saiu naturalmente, pois o ponto de partida na realização da monografia foi achar aspectos geográficos no poema morte e vida severina, o titulo da monografia era “As impressões geográficas no poema morte e vida severina- Auto de natal pernambucano”. Nesse poema J.C. de M. N dá uma aula de geografia no que concerne a estrutura agrária, conflitos por terra, desigualdade social, fome, indústria da miséria, entre outros. O rio foi abordado na monografia e teve um capitulo especial devido à sua importância para o personagem Severino. Severino como muito imigrante que vem tentar a sorte na cidade grande tem o Capibaribe como companheiro, companheiro de um sonho que é melhorar de vida. Não poderia falar do poema Morte e vida severina sem descrever o rio e sua importância.
2.Qual a importância do Rio para Pernambuco?
2.Qual a importância do Rio para Pernambuco?
O Capibaribe tem uma relevante importância para Pernambuco tanto no que se refere aos aspectos econômicos como há algum tempo atrás ao lazer. Os engenhos surgiram margeando o Capibaribe devido à facilidade de se transportar as mercadorias como também para a utilização das suas águas para movimentar o engenho. O rio teve e tem importância significativa para a economia do Estado, porém essa importância tem um preço, e o preço pago pelo rio é lamentável, triste e parte o coração. No período dos engenhos ao mesmo tempo em que servia para dar água, também servia como esgoto, como disse Gilberto Freyre “O monocultor rico do Nordeste fez da água dos rios um mictório”, ao longo dos anos o Capibaribe foi se transformando e passou de um rio de lazer para grande receptor de lixo. Até os anos de 1920, o Capibaribe era o coração da capital e os recifenses costumavam veranear no Poço da Panela e o rio exercia um papel importante no lazer dos abastardos da época. Hoje a situação é bem diferente. Matadouros de animais, lixões, esgoto sem tratamento, dejetos de fábricas de tecidos em Toritama e em Santa Cruz do Capibaribe é o que o rio vem recebendo e parece que vem perdendo a batalha para o homem que não dá a mínima para a importância ambiental, histórica, econômica e social do rio.
3.O que você concluiu na tese sobre a relação que João Cabral faz constantemente entre o homem e o Rio?
O homem se apoderou das margens do rio, passou a utilizá-lo como depósito de lixo, então o que podemos esperar de uma relação dessas? Esperar a degradação total do rio. Ver a estátua de J. C. de M. N na rua da aurora contemplando o Capibaribe é muito bonito, mas os pernambucanos de um modo geral não observam o rio de maneira apaixonada como João Cabral ou mesmo Manuel Bandeira observaram, observam o rio apenas como algo na paisagem que não tem importância ou se tem, é pouca. Um ponto positivo no que se refere a preservação do Capibaribe é o catamarã-escola que a prefeitura da cidade realiza com crianças da rede municipal, isso é importante, pois é com conscientização popular que vamos ver o rio com o mesmo carinho que os poetas viam.
Sou brasileiro, sei sorrir
São 46 pavilhões, 561 boxes, 80 compartimentos externos e cerca de trezentas pessoas trabalhando naquele que, para muitos, é um verdadeiro labirinto que aos poucos vai se permitindo descobrir. Como se as opções de produtos comercializados não fossem suficientes, não raro encontramos vendedores ambulantes que logo se perdem no emaranhado gente que flui tão rapidamente.
É na ebulição do Mercado de São José que encontramos um senhor tranqüilo, passos calmos e jeito humilde, varrendo cuidadosamente os corredores daquele lugar. Inaldo Raimundo de Oliveira, 47, há um ano desempenha com esmero e alegria o seu trabalho.
As 12 horas intensas de serviço, intercaladas em um dia de folga, para muitos poderiam ser desgastantes. Para Inaldo, são agradáveis momentos em que conversa com os amigos e interage com os comerciantes que tanto o estimam. Nenhuma reclamação a fazer do trabalho, muito menos do pouco mais de um salário que ganha e que diz ser suficiente para ajudar a mãe que mora com ele numa casinha em Santo Amaro.
Foi o desemprego que impulsionou o técnico de refrigeração para o ramo da limpeza. “O hotel onde eu trabalhava faliu, aí fui procurar emprego na empresa Setel e hoje estou aqui no Mercado por conta desta gestão”, conta Inaldo, que parece estar muito bem acomodado no cargo de servente. Mesmo sabendo da sua condição de instabilidade empregatícia, que é a de tantos outros brasileiros, o também letreiro de muros não se dá por vencido e pretende trabalhar bastante as próximas eleições ilustrando os muros do Recife com suas letras e números coloridos.
Se todos tivessem a garra de Inaldo e a oportunidade que ele tem de trabalhar numa das construções mais belas do Recife, fariam o que ele faz sempre quando a alegria no falar supera a timidez. Estampariam um largo sorriso no rosto. Nem mesmo a cegueira de um dos olhos o faz desanimar, pelo contrário, Inaldo sabe muito bem usar a visão que tem para observar as histórias que acontecem diariamente no Mercado. A mais recente delas na semana passada quando Marcone Ferraço, o vilão da novela Duas Caras, foi lá gravar suas cenas finais. Outro dia que lembra com orgulho foi quando viu a Rainha dos Baixinhos gravar cenas do seu programa ali mesmo. Mas as figurinhas carimbadas do lugar são Reginaldo Rossi e Alcymar Monteiro que não poderiam deixar de participar dessa lista do fã Inaldo, que os ouve sempre nas folgas de fim de semana.
O fato de estar sempre no ponto de encontro de todos é motivo de orgulho para Inaldo, apesar de passar despercebido por muita gente que não consegue enxergar a riqueza histórica que aquele homem tem para o Mercado de São José. A falta de olhares para Inaldo é medida no instante da surpresa que teve quando me aproximei para me apresentar e pedir que cedesse um instante de seu tempo para iniciarmos uma conversa.
- Desculpe incomodar, posso falar com um senhor um instante?
- Quem, Eu?
Logo que se empolga com minhas curiosidades, o encarregado da limpeza solta suas sábias palavras de apaixonado por sua terra. “Vir ao Recife e não visitar o Mercado de São José é como ir ao Rio de Janeiro e não ver Cristo Redentor”, compara Inaldo.
No meio dessa gente toda e no vai e vem do Mercado, surgem duas colegas de trabalho e Inaldo não pensa duas vezes em interromper a conversa para cumprimentá-las. Uma das mulheres é Ângela de Amorim, que brinca com a situação de ver o amigo sendo entrevistado e revela uma de suas facetas até então desconhecidas. “Cuidado moça, ele é namorador. Comigo já tentou, mas eu só saio com ele depois que meu marido morrer”, brinca a amiga.
Ângela só está ali há seis meses, mas já tem motivos de sobra para sorrir. De tudo já viu. Menino pequeno, “gringo” falando esquisito, cantador se dando bem com turista “mão aberta”, e até madame de salto alto se consultando com Lima da Luz. O que poucos sabem é que aquele sorriso disfarça um outro lado de Ângela, a batalhadora que acorda cedo para dar conta dos dois filhos, trabalhar e correr para a escola à noite, na intenção de concluir o ensino médio. Diferente do amigo Inaldo, seria feliz trabalhando em qualquer lugar onde lhe pagassem bem, apesar de demonstrar sabedoria ao reconhecer a importância do seu trabalho para a comunidade. “O que eu faço é muito importante para todos, principalmente para o Estado, pois o foco do Mercado são os turistas, e para que eles voltem precisam encontrar o lugar limpo e organizado. Não é uma questão de eu ganhar mais por isso, é uma maneira de dar exemplo para as pessoas sem educação que jogam lixo em qualquer lugar”, diz a servente.
A bela mulher de 32 anos, dos quais 14 foram dedicados ao trabalho, mostra-se consciente da sua condição e focada em um futuro melhor para a família. Quer crescer, ganhar mais, dar boa educação aos filhos e ajudar o marido a comprar uma casinha em Monsenhor Fabrício, subúrbio do Recife. Mas seu sonho maior não é o de muitos nordestinos. Partir rumo a São Paulo, por exemplo, não faz parte dos anseios daquela mulher que gostaria mesmo é de buscar abrigo da violência numa pacata cidade do interior, Pombos ou Nazaré da Mata.
São tantas as vidas que se cruzam naquele mundo chamado Mercado, que por muitas vezes deixamos as nossas para observar o desfile de histórias que ora são encantadoras, surpreendentes ou mesmo simples como a gente do mercado. Entre tantas histórias convidativas daquela tarde, a que me chama mais a atenção é a de Inaldo, o assalariado que comprou a idéia de “vestir a camisa” do Mercado. Vestir a camisa de qualquer trabalho, pois quando há dedicação no que ele e tantos outros Inaldos fazem, não importa se varrendo o chão ou salvando vidas, a possibilidade de sorrir aquele brasileiríssimo sorriso é muito maior.
É na ebulição do Mercado de São José que encontramos um senhor tranqüilo, passos calmos e jeito humilde, varrendo cuidadosamente os corredores daquele lugar. Inaldo Raimundo de Oliveira, 47, há um ano desempenha com esmero e alegria o seu trabalho.
As 12 horas intensas de serviço, intercaladas em um dia de folga, para muitos poderiam ser desgastantes. Para Inaldo, são agradáveis momentos em que conversa com os amigos e interage com os comerciantes que tanto o estimam. Nenhuma reclamação a fazer do trabalho, muito menos do pouco mais de um salário que ganha e que diz ser suficiente para ajudar a mãe que mora com ele numa casinha em Santo Amaro.
Foi o desemprego que impulsionou o técnico de refrigeração para o ramo da limpeza. “O hotel onde eu trabalhava faliu, aí fui procurar emprego na empresa Setel e hoje estou aqui no Mercado por conta desta gestão”, conta Inaldo, que parece estar muito bem acomodado no cargo de servente. Mesmo sabendo da sua condição de instabilidade empregatícia, que é a de tantos outros brasileiros, o também letreiro de muros não se dá por vencido e pretende trabalhar bastante as próximas eleições ilustrando os muros do Recife com suas letras e números coloridos.
Se todos tivessem a garra de Inaldo e a oportunidade que ele tem de trabalhar numa das construções mais belas do Recife, fariam o que ele faz sempre quando a alegria no falar supera a timidez. Estampariam um largo sorriso no rosto. Nem mesmo a cegueira de um dos olhos o faz desanimar, pelo contrário, Inaldo sabe muito bem usar a visão que tem para observar as histórias que acontecem diariamente no Mercado. A mais recente delas na semana passada quando Marcone Ferraço, o vilão da novela Duas Caras, foi lá gravar suas cenas finais. Outro dia que lembra com orgulho foi quando viu a Rainha dos Baixinhos gravar cenas do seu programa ali mesmo. Mas as figurinhas carimbadas do lugar são Reginaldo Rossi e Alcymar Monteiro que não poderiam deixar de participar dessa lista do fã Inaldo, que os ouve sempre nas folgas de fim de semana.
O fato de estar sempre no ponto de encontro de todos é motivo de orgulho para Inaldo, apesar de passar despercebido por muita gente que não consegue enxergar a riqueza histórica que aquele homem tem para o Mercado de São José. A falta de olhares para Inaldo é medida no instante da surpresa que teve quando me aproximei para me apresentar e pedir que cedesse um instante de seu tempo para iniciarmos uma conversa.
- Desculpe incomodar, posso falar com um senhor um instante?
- Quem, Eu?
Logo que se empolga com minhas curiosidades, o encarregado da limpeza solta suas sábias palavras de apaixonado por sua terra. “Vir ao Recife e não visitar o Mercado de São José é como ir ao Rio de Janeiro e não ver Cristo Redentor”, compara Inaldo.
No meio dessa gente toda e no vai e vem do Mercado, surgem duas colegas de trabalho e Inaldo não pensa duas vezes em interromper a conversa para cumprimentá-las. Uma das mulheres é Ângela de Amorim, que brinca com a situação de ver o amigo sendo entrevistado e revela uma de suas facetas até então desconhecidas. “Cuidado moça, ele é namorador. Comigo já tentou, mas eu só saio com ele depois que meu marido morrer”, brinca a amiga.
Ângela só está ali há seis meses, mas já tem motivos de sobra para sorrir. De tudo já viu. Menino pequeno, “gringo” falando esquisito, cantador se dando bem com turista “mão aberta”, e até madame de salto alto se consultando com Lima da Luz. O que poucos sabem é que aquele sorriso disfarça um outro lado de Ângela, a batalhadora que acorda cedo para dar conta dos dois filhos, trabalhar e correr para a escola à noite, na intenção de concluir o ensino médio. Diferente do amigo Inaldo, seria feliz trabalhando em qualquer lugar onde lhe pagassem bem, apesar de demonstrar sabedoria ao reconhecer a importância do seu trabalho para a comunidade. “O que eu faço é muito importante para todos, principalmente para o Estado, pois o foco do Mercado são os turistas, e para que eles voltem precisam encontrar o lugar limpo e organizado. Não é uma questão de eu ganhar mais por isso, é uma maneira de dar exemplo para as pessoas sem educação que jogam lixo em qualquer lugar”, diz a servente.
A bela mulher de 32 anos, dos quais 14 foram dedicados ao trabalho, mostra-se consciente da sua condição e focada em um futuro melhor para a família. Quer crescer, ganhar mais, dar boa educação aos filhos e ajudar o marido a comprar uma casinha em Monsenhor Fabrício, subúrbio do Recife. Mas seu sonho maior não é o de muitos nordestinos. Partir rumo a São Paulo, por exemplo, não faz parte dos anseios daquela mulher que gostaria mesmo é de buscar abrigo da violência numa pacata cidade do interior, Pombos ou Nazaré da Mata.
São tantas as vidas que se cruzam naquele mundo chamado Mercado, que por muitas vezes deixamos as nossas para observar o desfile de histórias que ora são encantadoras, surpreendentes ou mesmo simples como a gente do mercado. Entre tantas histórias convidativas daquela tarde, a que me chama mais a atenção é a de Inaldo, o assalariado que comprou a idéia de “vestir a camisa” do Mercado. Vestir a camisa de qualquer trabalho, pois quando há dedicação no que ele e tantos outros Inaldos fazem, não importa se varrendo o chão ou salvando vidas, a possibilidade de sorrir aquele brasileiríssimo sorriso é muito maior.
domingo, 15 de junho de 2008
O homem-instrumento
Quem vê a figura gorda de Renato Ramos subindo as ladeiras de Olinda pode apostar que o corpo pesado não permitirá que ele chegue ao final. Muito menos que subir e descer ladeiras é uma tarefa comum para ele, ato que repete cotidianamente, já que mora no alto de uma delas. É no alto de uma delas, aliás, que ele fabrica, manualmente, alfaias e abês, instrumentos de percussão utilizados essencialmente por grupos de Maracatu. É lá no alto que ensina jovens e adultos a tocarem esses instrumentos, se apresenta com o Mojubá (que significa ‘eu te abençôo’ em Iorubá, um dialeto africano), grupo que fundou e costuma sentar na calçada, bem à vontade, de bermuda florida e chinelo de dedo, para ver as pessoas passarem.
Além de fabricar os instrumentos, Renato ensina a quem se interessar em manuseá-los. Para cada aluno que freqüente, duas vezes por semana, as oficinas de música que promove ali mesmo, no quintal de sua própria casa, o mestre cobra R$ 60 mensais. O preço muda de acordo com a participação e o interesse do aluno. Tudo é negociável. Mas nenhum valor parece pagar o aprendizado transmitido pelas mãos negras do homem gordo. Aquelas mãos trabalham incansavelmente. E tem serviço o ano inteiro. Na época em que as oficinas estão meio paradas, ele trabalha fabricando instrumentos para o Carnaval. Acontece que a festa da carne começa cedo para quem ganha a vida com ela. “As encomendas grandes para o Carnaval começam a chegar em Junho, mas desde Março eu comecei a fazer instrumentos para a folia”, diz enquanto raspa com uma faquinha sem cabo uma cabaça, que logo se transformará num abê.
Nas horas vagas, Renato participa das reuniões de um terreiro de Candomblé, no bairro de Águas Compridas. Lá ele toca para os orixás. É quando trabalho e paixão misturam-se à crença. E então o homem despretensioso, de barba por fazer, que gosta de sentar na calçada para acompanhar o movimento das ruas, se concentra. Porque religião é coisa séria. E no momento do rito, o tambor deixa de ser instrumento de percussão para tornar-se instrumento de culto. Tudo deve ser feito com amor, com respeito.
Renato tinha apenas dez anos de idade quando tirou som de uma alfaia pela primeira vez. Hoje, aos 31, lembra desse dia com clareza e demonstra um orgulho imenso de poder viver exclusivamente do que mais gosta. Viver “mantendo a tradição”, como diz. É que ‘manter a tradição’ é, para Renato, a missão maior. Por isso, não faz parte de grupos de maracatu estilizado, aqueles em que pode haver interferências de outros ritmos e toques inventados. Quem participa de suas oficinas só aprende os toques do maracatu tradicional, aquele tocado pelos reis africanos, dos quais o mestre descende. Nada de invencionices. Nada de modernidade ou qualquer uma dessas coisas que, para Renato, são apenas o reflexo das exigências do mercado.
É assim que ele pensa. Tal posição pode até parecer radical, coisa de quem não se acostumou com o hibridismo característico dos tempos pós-modernos e tem dificuldades de adaptar-se ao novo. Talvez seja mesmo. Mas para aquele homem, que desde menino trabalha com isso, tira disso o sustento e carrega o som do instrumento como símbolo de religião, é um posicionamento perfeitamente cabível. O único a ser tomado. Porque cultura é história. E, segundo ele, é preciso manter a tradição para que a história não se apague, a cultura não se descaracterize e o Maracatu não se perca nessa descaracterização. Seria deixar escorrer uma parte de suas crenças e convicções. E o radicalismo, na verdade, é o receio que o homem-instrumento tem de perder a identidade, deixar esvair a própria história.
Além de fabricar os instrumentos, Renato ensina a quem se interessar em manuseá-los. Para cada aluno que freqüente, duas vezes por semana, as oficinas de música que promove ali mesmo, no quintal de sua própria casa, o mestre cobra R$ 60 mensais. O preço muda de acordo com a participação e o interesse do aluno. Tudo é negociável. Mas nenhum valor parece pagar o aprendizado transmitido pelas mãos negras do homem gordo. Aquelas mãos trabalham incansavelmente. E tem serviço o ano inteiro. Na época em que as oficinas estão meio paradas, ele trabalha fabricando instrumentos para o Carnaval. Acontece que a festa da carne começa cedo para quem ganha a vida com ela. “As encomendas grandes para o Carnaval começam a chegar em Junho, mas desde Março eu comecei a fazer instrumentos para a folia”, diz enquanto raspa com uma faquinha sem cabo uma cabaça, que logo se transformará num abê.
Nas horas vagas, Renato participa das reuniões de um terreiro de Candomblé, no bairro de Águas Compridas. Lá ele toca para os orixás. É quando trabalho e paixão misturam-se à crença. E então o homem despretensioso, de barba por fazer, que gosta de sentar na calçada para acompanhar o movimento das ruas, se concentra. Porque religião é coisa séria. E no momento do rito, o tambor deixa de ser instrumento de percussão para tornar-se instrumento de culto. Tudo deve ser feito com amor, com respeito.
Renato tinha apenas dez anos de idade quando tirou som de uma alfaia pela primeira vez. Hoje, aos 31, lembra desse dia com clareza e demonstra um orgulho imenso de poder viver exclusivamente do que mais gosta. Viver “mantendo a tradição”, como diz. É que ‘manter a tradição’ é, para Renato, a missão maior. Por isso, não faz parte de grupos de maracatu estilizado, aqueles em que pode haver interferências de outros ritmos e toques inventados. Quem participa de suas oficinas só aprende os toques do maracatu tradicional, aquele tocado pelos reis africanos, dos quais o mestre descende. Nada de invencionices. Nada de modernidade ou qualquer uma dessas coisas que, para Renato, são apenas o reflexo das exigências do mercado.
É assim que ele pensa. Tal posição pode até parecer radical, coisa de quem não se acostumou com o hibridismo característico dos tempos pós-modernos e tem dificuldades de adaptar-se ao novo. Talvez seja mesmo. Mas para aquele homem, que desde menino trabalha com isso, tira disso o sustento e carrega o som do instrumento como símbolo de religião, é um posicionamento perfeitamente cabível. O único a ser tomado. Porque cultura é história. E, segundo ele, é preciso manter a tradição para que a história não se apague, a cultura não se descaracterize e o Maracatu não se perca nessa descaracterização. Seria deixar escorrer uma parte de suas crenças e convicções. E o radicalismo, na verdade, é o receio que o homem-instrumento tem de perder a identidade, deixar esvair a própria história.
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A colcha dos retalhos
terça-feira, 10 de junho de 2008
O APÓSTOLO DO BEM
Chama-se de agnóstico quem se privilegia do benefício da dúvida para colocar em xeque a existência de qualquer tipo de divindade. Eu sempre me declarei assim. Em gente que diz prevê o futuro nunca acreditei. Visitar alguém que jogue búzios, cartas e tarô seria, no mínimo, uma tarefa inusitada, principalmente para uma pessoa tão descrente quanto eu. Consultar-me com esta pessoa, então, missão quase impossível. Mas foi o que fiz.
Passava das 14h quando cheguei ao Box 198, no Mercado de São José, centro do Recife, para me consultar com Lima da Luz, o “apóstolo do bem”, como se autodenomina. Lima atende no mercado há 14 anos, das 9h às 16h. Joga cartas, tarô, búzios e se diz terapeuta espiritual ou consultor de auto-ajuda, pois fornece “uma orientação baseada na doutrina espírita que visa esclarecer, evoluir e melhorar a vida da pessoa”. A sala de espera é ali mesmo, no corredor estreito do mercado. E dos quatro banquinhos disponíveis, dois já estavam ocupados (por mulheres jovens e bem vestidas) quando eu cheguei. Vou pagar R$ 10,00 para saber do futuro.
Mais estranho que estar ali, porém, foram as sensações que tive enquanto aguardava a minha vez de ouvir o “apóstolo do bem”. Fiquei ansiosa, nervosa e até com uma dose de medo. É que o desconhecido assusta, por mais que se diga não acreditar nele. Do lado de fora, um quadro com a imagem de São Cosme e São Damião serve de porta para o box. Para passar o tempo, leio, atentamente, as normas de trabalho do meu consultor: Aqui trabalho com a mediunidade e Jesus. Não faço nenhum tipo de trabalho, simpatias, rituais ou adivinhação. Não prego nenhuma crença, seitas, dogmas ou superstições, mostro o caminho do cristianismo redivivo. Todos os meus serviços são baseados na doutrina dos espíritos e na lei de causa e efeito, ação e reação, amor, paz e caridade. Jogo búzios, cartas e tarô, para receber orientações dos espíritos superiores, que nos mostrarão o melhor caminho a seguir. Aqui só faço o bem e a caridade, fora destas normas não atendo. Disse Jesus: se tiveres fé, tudo é possível.
Chega a minha vez de ser atendida. Respiro fundo e vou. Sou recebida por um homem perfumado, de avental branco, voz rouca, olhos amendoados e barba por fazer. No crachá que trás no pescoço, sua identificação oficial, com foto e nome, para que não reste dúvidas sobre a seriedade do trabalho. Ele aponta uma cadeira de plástico branca para que eu sente. Assim o faço. O lugar é pequeno, escuro e inóspito. A cor rosa das paredes quase desaparece por trás de inúmeras prateleiras amarelas que comportam, cada uma, além de imagens de entidades católicas, do umbanda e do candomblé, uma infinidade de extratos de ervas, que Lima vende aos interessados. Há extratos para todos os tipos de necessidades. Basta banhar-se e pronto, problema resolvido. Os mais vendidos são: “Hei de vencer”, “Dezata nó” e “Desmancha tudo”. O cheiro de insenso é quase insuportável. Além de apertado, o lugar é quente e o calor é amenizado apenas por um ventilador, que não pára de trabalhar nem por um instante. Na única parede vazia do box, um telefone fixo, certificados de participação em congressos de esoterismo e fotos do próprio Lima. Mais três aparelhos móveis, todos funcionando, ficam em cima da mesa. Percebo o quanto o meu consultor é procurado. Sinto-me acuada.
Antes de tudo, Lima quer saber o meu nome. Respondo e permaneço calada. Ficar calada foi a estratégia que adotei. Quanto menos informações concretas ele tivesse sobre mim, melhor. O consultor pergunta, então, qual jogo quero que faça, cartas, búzios ou tarô. Peço que me sugira. Em seguida, ele pergunta sobre que assunto me interesso mais em saber: amor, dinheiro, saúde, profissão, família. Eu respondo prontamente: amor. “Pois então vou jogar búzios, é mais indicado para saber de amor. Mas é possível saber das outras áreas também”, diz. Eu aceno com a cabeça em sinal de aprovação. Coloca as conchinhas nas mãos e pede: “Pense em Jesus”. Tento esconder o nervosismo e não consigo pensar em nada. Meu olhar fica centrado no movimento rápido que o “apóstolo do bem” faz com as mãos fechadas, balançando as conchinhas. Ele muda o timbre da voz e começa a orar num dialeto africano. Joga os búzios na mesa e passa a fazer a análise. Difícil acreditar que a minha existência possa se revelar ali, naquele amontoado de conchas, ora abertas, ora fechadas. Difícil acreditar que a posição delas coincide com os rumos que podem tomar a minha vida e que aquele homem moreno, de estatura mediana e olhar duvidoso pode saber alguma coisa das minhas dores, alegrias ou das escolhas que eu posso vir a fazer.
Mesmo sem acreditar, baixo a guarda e deixo que ele conte o que os búzios revelam. Começa o jogo de palpites e supostas adivinhações segundo o qual o meu futuro será repleto de realizações. O sucesso me espera. Minha competência não tem limites. Serei uma profissional invejável. Ganharei muito dinheiro. Qualquer pessoa que acredite, por pouco que seja, nesse tipo de jogo, sairia dali extremamente contente. E voltaria outras vezes. Descubro, então, aquela que talvez seja a maior tática do meu consultor: dizer coisas boas. Sempre generalidades, mas generalidades do bem. A fala alta e apressada do adivinho explica: “Na vida nós passamos por duas Eras, a Era do Karma e a Era do Equilíbrio. Você está na Era do Equilíbrio, logo, as coisas só tendem a dar certo na sua vida”. Com uma caneta ele vai separando as conchinhas e dizendo o que vê em cada uma delas: “Você trabalhando. Você tendo sucesso. Sua vida progredindo”. Espero ansiosa por algo realmente revelador, mas uma sucessão de repetições sai da boca do adivinho.
Ele continua: “Seu corpo é fechado. Nossa Senhora da Conceição lhe protege, nenhum tipo de trabalho, macumba ou bruxaria pega em você”. Passa para o campo amoroso: “Amor do passado voltando. Tem esse?”, pergunta como quem espera uma afirmação para continuar com as suposições. Respondo que não. Ele insiste e diz que não vale a pena, que passado é passado e me aconselha a virar de vez a página. Afirmo que seguirei o conselho. “Amor do presente gosta de você e está bem intencionado. Tem esse?”, repete a pergunta. Não tem amor no presente, estou solteiríssima. Mas resolvo mentir. Quero ver a reação do meu consultor. Respondo que sim. Ele pede, então, para que eu não me apegue e vá com calma. Eu insisto: “Mas se ele gosta de mim, por que não devo me apegar?”. Sua resposta é a mais generalista possível, diz que na vida não devemos nos apegar a nada porque, na verdade, nada temos de nosso. Assim, se um dia o amor acabar, não sofreremos tanto. Finjo-me de convencida e deixo que ele continue.
“Pretende viajar a trabalho? Eu vejo uma viagem de trabalho para você aqui”. Qualquer pessoa, independentemente da profissão, pode, alguma vez na vida, precisar fazer uma viagem a trabalho. Além do quê, quem não gostaria de viajar? O meu consultor é um homem esperto. Descubro na ‘viagem de negócios’ mais uma de suas generalizações. Digo que pretendo viajar sim e ele segue repetindo que serei uma brilhante profissional e as portas do sucesso estão abertas para mim.
Passados cerca de dez minutos, estamos quase no fim da consulta quando o “apóstolo do bem” diz que tenho direito a fazer cinco perguntas extras. Se houver algo que os búzios não revelaram, mas que eu queira saber, devo dizer agora que ele vai me responder. As unhas grandes do adivinho, então, arrastam seis búzios que logo serão, novamente, chacoalhados entre as suas mãos. Agora, um número muito menor de conchas será responsável por responder a perguntas, teoricamente, mais concretas. É impossível conter a descrença. Ainda sim, sigo incólume no meu papel de consulente.
Pergunto sobre o futuro e ele revela que casarei, serei uma mulher independente, terei minha casa própria e serei mãe de dois filhos, possivelmente, um casal. Logo eu, que tenho sérias dúvidas sobre a minha vocação para a maternidade. Quando a questão é a família, descubro que sou protegida por Nossa Senhora das Graças e que ela faz com que corra tudo bem comigo e com os meus parentes. No entanto, minutos antes o meu consultor havia dito que Nossa Senhora da Conceição é a minha protetora. Quero acreditar que uma moça de sorte, talento e sucesso garantido, como ele disse que sou, só pode mesmo ser protegida por mais de uma entidade. Pergunto sobre o ciclo de amizade e ele me pede para ter cuidado. Há muitos amigos invejosos, não devo confidenciar meus segredos a ninguém. Digo que vou seguir o conselho e resolvo fazer perguntas mais concretas. Questiono se o meu futuro namoro dará certo. Ele responde que sim, que o rapaz é bem intencionado e vai fazer de tudo para ficarmos juntos. Vale ressaltar que não há namorado algum. Tudo não passou de invencionice da minha cabeça. Assim sendo, resolvo revelar-lhe um segredo:
- É o seguinte, Seu Lima, esse meu quase namorado estava comprometido quando o conheci e até bem pouco tempo ainda estava enrolado com outra pessoa.
- Você quer saber se terminou? – diz ele sem esperar que eu conclua a frase.
- Isso mesmo, afirmo.
Joga as seis conchinhas na mesa, analisa-as rapidamente, olha para mim e diz: “Terminou, ouviu? Terminou. Ele não está mais com ela”. Faço cara de satisfeita, tento conter o riso e agradeço. Fim da consulta. Se existisse, de fato, um pretendente, certamente eu sairia do box do Lima contente e cheia de esperança. Possivelmente, foi assim que outras mulheres saíram de lá. Faço o pagamento ali mesmo, antes de levantar-me da cadeira branca. Entrego-lhe R$ 20,00 e antes de devolver o troco, ele abençoa o dinheiro. “Nunca mais vai faltar uma nota de vinte na sua carteira”, afirma. Saio calada, da mesma forma que cheguei. Sou a sexta cliente do dia. Ele atende cerca de 12, diariamente. Um rendimento de R$ 1.200,00 por semana ou R$ 4.800 mensais. Nada mal para quem trabalha naturalmente, sem nenhum tipo de esforço, já que o poder da previsão é um ‘dom divido’, privilégio de poucos
Antes de sair em definitivo, olho a barraquinha de adivinhações mais uma vez. É incrível como o desconhecido mexe com a imaginação das pessoas. A impressão que se tem é que acredita nas previsões do Lima quem já foi disposto a acreditar. São apenas suposições que só convencem quem quiser ser convencido. E já há outra mulher esperando para ser atendida. Mais uma pronta para descobrir como escapar dos labirintos do futuro. Aperto a mãe do consultor e me despeço. Mas não sem antes ler um último dizer: “Por tudo que você é, por tudo que você faz e pelo que sou quando estou com você, muito obrigado!”.
Passava das 14h quando cheguei ao Box 198, no Mercado de São José, centro do Recife, para me consultar com Lima da Luz, o “apóstolo do bem”, como se autodenomina. Lima atende no mercado há 14 anos, das 9h às 16h. Joga cartas, tarô, búzios e se diz terapeuta espiritual ou consultor de auto-ajuda, pois fornece “uma orientação baseada na doutrina espírita que visa esclarecer, evoluir e melhorar a vida da pessoa”. A sala de espera é ali mesmo, no corredor estreito do mercado. E dos quatro banquinhos disponíveis, dois já estavam ocupados (por mulheres jovens e bem vestidas) quando eu cheguei. Vou pagar R$ 10,00 para saber do futuro.
Mais estranho que estar ali, porém, foram as sensações que tive enquanto aguardava a minha vez de ouvir o “apóstolo do bem”. Fiquei ansiosa, nervosa e até com uma dose de medo. É que o desconhecido assusta, por mais que se diga não acreditar nele. Do lado de fora, um quadro com a imagem de São Cosme e São Damião serve de porta para o box. Para passar o tempo, leio, atentamente, as normas de trabalho do meu consultor: Aqui trabalho com a mediunidade e Jesus. Não faço nenhum tipo de trabalho, simpatias, rituais ou adivinhação. Não prego nenhuma crença, seitas, dogmas ou superstições, mostro o caminho do cristianismo redivivo. Todos os meus serviços são baseados na doutrina dos espíritos e na lei de causa e efeito, ação e reação, amor, paz e caridade. Jogo búzios, cartas e tarô, para receber orientações dos espíritos superiores, que nos mostrarão o melhor caminho a seguir. Aqui só faço o bem e a caridade, fora destas normas não atendo. Disse Jesus: se tiveres fé, tudo é possível.
Chega a minha vez de ser atendida. Respiro fundo e vou. Sou recebida por um homem perfumado, de avental branco, voz rouca, olhos amendoados e barba por fazer. No crachá que trás no pescoço, sua identificação oficial, com foto e nome, para que não reste dúvidas sobre a seriedade do trabalho. Ele aponta uma cadeira de plástico branca para que eu sente. Assim o faço. O lugar é pequeno, escuro e inóspito. A cor rosa das paredes quase desaparece por trás de inúmeras prateleiras amarelas que comportam, cada uma, além de imagens de entidades católicas, do umbanda e do candomblé, uma infinidade de extratos de ervas, que Lima vende aos interessados. Há extratos para todos os tipos de necessidades. Basta banhar-se e pronto, problema resolvido. Os mais vendidos são: “Hei de vencer”, “Dezata nó” e “Desmancha tudo”. O cheiro de insenso é quase insuportável. Além de apertado, o lugar é quente e o calor é amenizado apenas por um ventilador, que não pára de trabalhar nem por um instante. Na única parede vazia do box, um telefone fixo, certificados de participação em congressos de esoterismo e fotos do próprio Lima. Mais três aparelhos móveis, todos funcionando, ficam em cima da mesa. Percebo o quanto o meu consultor é procurado. Sinto-me acuada.
Antes de tudo, Lima quer saber o meu nome. Respondo e permaneço calada. Ficar calada foi a estratégia que adotei. Quanto menos informações concretas ele tivesse sobre mim, melhor. O consultor pergunta, então, qual jogo quero que faça, cartas, búzios ou tarô. Peço que me sugira. Em seguida, ele pergunta sobre que assunto me interesso mais em saber: amor, dinheiro, saúde, profissão, família. Eu respondo prontamente: amor. “Pois então vou jogar búzios, é mais indicado para saber de amor. Mas é possível saber das outras áreas também”, diz. Eu aceno com a cabeça em sinal de aprovação. Coloca as conchinhas nas mãos e pede: “Pense em Jesus”. Tento esconder o nervosismo e não consigo pensar em nada. Meu olhar fica centrado no movimento rápido que o “apóstolo do bem” faz com as mãos fechadas, balançando as conchinhas. Ele muda o timbre da voz e começa a orar num dialeto africano. Joga os búzios na mesa e passa a fazer a análise. Difícil acreditar que a minha existência possa se revelar ali, naquele amontoado de conchas, ora abertas, ora fechadas. Difícil acreditar que a posição delas coincide com os rumos que podem tomar a minha vida e que aquele homem moreno, de estatura mediana e olhar duvidoso pode saber alguma coisa das minhas dores, alegrias ou das escolhas que eu posso vir a fazer.
Mesmo sem acreditar, baixo a guarda e deixo que ele conte o que os búzios revelam. Começa o jogo de palpites e supostas adivinhações segundo o qual o meu futuro será repleto de realizações. O sucesso me espera. Minha competência não tem limites. Serei uma profissional invejável. Ganharei muito dinheiro. Qualquer pessoa que acredite, por pouco que seja, nesse tipo de jogo, sairia dali extremamente contente. E voltaria outras vezes. Descubro, então, aquela que talvez seja a maior tática do meu consultor: dizer coisas boas. Sempre generalidades, mas generalidades do bem. A fala alta e apressada do adivinho explica: “Na vida nós passamos por duas Eras, a Era do Karma e a Era do Equilíbrio. Você está na Era do Equilíbrio, logo, as coisas só tendem a dar certo na sua vida”. Com uma caneta ele vai separando as conchinhas e dizendo o que vê em cada uma delas: “Você trabalhando. Você tendo sucesso. Sua vida progredindo”. Espero ansiosa por algo realmente revelador, mas uma sucessão de repetições sai da boca do adivinho.
Ele continua: “Seu corpo é fechado. Nossa Senhora da Conceição lhe protege, nenhum tipo de trabalho, macumba ou bruxaria pega em você”. Passa para o campo amoroso: “Amor do passado voltando. Tem esse?”, pergunta como quem espera uma afirmação para continuar com as suposições. Respondo que não. Ele insiste e diz que não vale a pena, que passado é passado e me aconselha a virar de vez a página. Afirmo que seguirei o conselho. “Amor do presente gosta de você e está bem intencionado. Tem esse?”, repete a pergunta. Não tem amor no presente, estou solteiríssima. Mas resolvo mentir. Quero ver a reação do meu consultor. Respondo que sim. Ele pede, então, para que eu não me apegue e vá com calma. Eu insisto: “Mas se ele gosta de mim, por que não devo me apegar?”. Sua resposta é a mais generalista possível, diz que na vida não devemos nos apegar a nada porque, na verdade, nada temos de nosso. Assim, se um dia o amor acabar, não sofreremos tanto. Finjo-me de convencida e deixo que ele continue.
“Pretende viajar a trabalho? Eu vejo uma viagem de trabalho para você aqui”. Qualquer pessoa, independentemente da profissão, pode, alguma vez na vida, precisar fazer uma viagem a trabalho. Além do quê, quem não gostaria de viajar? O meu consultor é um homem esperto. Descubro na ‘viagem de negócios’ mais uma de suas generalizações. Digo que pretendo viajar sim e ele segue repetindo que serei uma brilhante profissional e as portas do sucesso estão abertas para mim.
Passados cerca de dez minutos, estamos quase no fim da consulta quando o “apóstolo do bem” diz que tenho direito a fazer cinco perguntas extras. Se houver algo que os búzios não revelaram, mas que eu queira saber, devo dizer agora que ele vai me responder. As unhas grandes do adivinho, então, arrastam seis búzios que logo serão, novamente, chacoalhados entre as suas mãos. Agora, um número muito menor de conchas será responsável por responder a perguntas, teoricamente, mais concretas. É impossível conter a descrença. Ainda sim, sigo incólume no meu papel de consulente.
Pergunto sobre o futuro e ele revela que casarei, serei uma mulher independente, terei minha casa própria e serei mãe de dois filhos, possivelmente, um casal. Logo eu, que tenho sérias dúvidas sobre a minha vocação para a maternidade. Quando a questão é a família, descubro que sou protegida por Nossa Senhora das Graças e que ela faz com que corra tudo bem comigo e com os meus parentes. No entanto, minutos antes o meu consultor havia dito que Nossa Senhora da Conceição é a minha protetora. Quero acreditar que uma moça de sorte, talento e sucesso garantido, como ele disse que sou, só pode mesmo ser protegida por mais de uma entidade. Pergunto sobre o ciclo de amizade e ele me pede para ter cuidado. Há muitos amigos invejosos, não devo confidenciar meus segredos a ninguém. Digo que vou seguir o conselho e resolvo fazer perguntas mais concretas. Questiono se o meu futuro namoro dará certo. Ele responde que sim, que o rapaz é bem intencionado e vai fazer de tudo para ficarmos juntos. Vale ressaltar que não há namorado algum. Tudo não passou de invencionice da minha cabeça. Assim sendo, resolvo revelar-lhe um segredo:
- É o seguinte, Seu Lima, esse meu quase namorado estava comprometido quando o conheci e até bem pouco tempo ainda estava enrolado com outra pessoa.
- Você quer saber se terminou? – diz ele sem esperar que eu conclua a frase.
- Isso mesmo, afirmo.
Joga as seis conchinhas na mesa, analisa-as rapidamente, olha para mim e diz: “Terminou, ouviu? Terminou. Ele não está mais com ela”. Faço cara de satisfeita, tento conter o riso e agradeço. Fim da consulta. Se existisse, de fato, um pretendente, certamente eu sairia do box do Lima contente e cheia de esperança. Possivelmente, foi assim que outras mulheres saíram de lá. Faço o pagamento ali mesmo, antes de levantar-me da cadeira branca. Entrego-lhe R$ 20,00 e antes de devolver o troco, ele abençoa o dinheiro. “Nunca mais vai faltar uma nota de vinte na sua carteira”, afirma. Saio calada, da mesma forma que cheguei. Sou a sexta cliente do dia. Ele atende cerca de 12, diariamente. Um rendimento de R$ 1.200,00 por semana ou R$ 4.800 mensais. Nada mal para quem trabalha naturalmente, sem nenhum tipo de esforço, já que o poder da previsão é um ‘dom divido’, privilégio de poucos
Antes de sair em definitivo, olho a barraquinha de adivinhações mais uma vez. É incrível como o desconhecido mexe com a imaginação das pessoas. A impressão que se tem é que acredita nas previsões do Lima quem já foi disposto a acreditar. São apenas suposições que só convencem quem quiser ser convencido. E já há outra mulher esperando para ser atendida. Mais uma pronta para descobrir como escapar dos labirintos do futuro. Aperto a mãe do consultor e me despeço. Mas não sem antes ler um último dizer: “Por tudo que você é, por tudo que você faz e pelo que sou quando estou com você, muito obrigado!”.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
FUXICO, com Liliane Reis
A partir de hoje, uma outra coluna fará parte do Retalhos de Cetim, a Fuxico. Nessa coluna, um convidado responderá uma "entrevista-pílula", com no máximo cinco perguntas, sobre um ou vários assuntos. Para começar com o pé direito, segue uma entrevista com Liliane Reis, apresentadora dos programas Decola e Atitude.com, ambos veiculados pela TVBrasil. Liliane, a Lili, é baiana, com muito orgulho, jornalista de formação e aventureira por natureza. Já trabalhou em rádio, jornal impresso e a há algum tempo atua na TV. Uma daquelas garotas arretadas, que nunca perdem a juventude. É sempre bom ler entrevistas de gente que tem algo a dizer. Divirtam-se!

1. Qual o maior desafio de trabalhar com o público jovem?
A multiplicidade. O Atitude.com é o único programa da TV Brasil voltado para a juventude. Isso nos dá a responsabilidade de não falar para um jovem, o underground ou do mainstream, o eletrônico ou o micareteiro, o emo ou…. O grande desafio não é fazer um programa a cada dia, e sim, vários programas em um. Pra isso, parto da maxima do Tom Zé: “Tou te explicando pra te confundir, tou te confundindo pra te esclarecer!”. Esse é o caminho, mas ainda temos uma longa estrada a percorrer….
2. Há quem diga que os jovens de hoje estão mais inertes, alienados e politicamente desinteressados que o de anos atrás. Você concorda? Por quê?
Acho esse julgamento superficial e desinformado. O jovem da geração zero-zero, da primeira década do século 21, não pode ser como as décadas de 60 ou 70, simplesmente por que é outra conjuntura histórica. Mudaram as formas de organização e mudaram as bandeiras. Hoje, muita gente se reúne em torno de causas ecológicas, se une em coletivos e se divulgam pela internet….Posso te dá dois exemplos, daqui do Rio, de mobilização e solidariedade capitaneadas por jovens: o movimento pela Lapa Limpa, que cobra políticas públicas pra essa area do centro da cidade e o Arte nos Presídios, que com recursos próprios e voluntariado, a turma tem levado música e poesia pra quem está atrás das grandes, esquecidos pela sociedade e pelos governantes.
3. Você acredita que um programa no formato do Atitude.com, no horário em que ele é veiculado, teria espaço em outra emissora que não fosse pública?
A televisão tá uma coisa muito louca….Uma verdadeira torre de babel, onde ninguém se entende. Desde que me mudei da Bahia pro Rio, há pouco mais de um ano, passei mais tempo sem do que com tevê em casa. Isso quer dizer, que a resposta talvez seja não, não teria, mas em função da tevê está passando por uma fase crítica, que pede que ela seja repensada por quem faz e quem vê TV. Do contrário, o jovem vai continuar migrando para a internet…A internet tem a ferramenta da interatividade, que a tevê ainda está muito tímida. Esse é o nosso sonho com o Atitude, daí o “ponto com” na extensão do nome do programa. Mas adimito que estamos ainda na etapa da intenção dez e realização cinco e meio…
4. No Decola você viaja pelo país inteiro mostrando histórias diferentes, de uma gente diferente. Pessoalmente, como você faz para identificar as histórias que renderiam boas reportagens?
Não é gente diferente, é gente invisível, off mídia! Achá-los não é tão díficil quanto parece, é mais uma questão de ampliar o olhar. Muitas histórias chegam até a mim, a partir de telesctadores que vêem no programa um espaço sensível de revelar o Brasil sem esteréotipos. Não curto os programa pseudo-antopológicos, que parecem dizer: olha como o sotaque é bonitinho…porque que os regionalismos precisam soar exóticos? Porque o olhar costuma partir do regional do sudeste. Com os poli-focos ampliados pela internet, isso vai a mudar. Espero contribuir com o que estiver ao meu alcance para construir um espaço verdadeiramente plural, a partir da produção colaborativa, onde damos não apenas visibilidade aos Brasis, mas espaço do que está sendo produzido circular.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
Maternidade Encarcerada*
- Liliane
É dia de festa. As anfitriãs acordam cedo e tratam de tomar banho. A próxima tarefa é pendurar bexigas coloridas no pátio, numa tentativa de alegrar o ambiente normalmente sombrio.
Do lado de fora, crianças e adultos formam uma fila. A espera é barulhenta. Conversas, risinhos e choros infantis se confundem. Os adultos carregam sacolas que exalam um cheirinho bom, de comida nova.
Entram aos pares e a cada entrada há gritinhos de alegria, choros emocionados e exclamações de saudade.
Estamos na Cadeia Feminina de Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, num dia de visita anterior ao segundo domingo de maio. Mães encarceradas iriam comemorar com os filhos o Dia das Mães.
“Hoje é dia de festa. O diretor deixou que as visitas entrassem mais cedo. Vamos poder almoçar com nossos filhos, trocar fralda, pôr pra dormir. Uma delícia!”, festeja Liliane (atendemos às solicitações para não mencionar os verdadeiros nomes das presidiárias e de seus filhos). Liliane tem 28 anos.
Se o dia de visitas já é ansiosamente esperado pelas 57 mulheres deste presídio, imaginem para as que são mães (90% delas).
“Acho que hoje minha mãe vai trazer meus filhos. Quase nunca eles vêm, porque fica caro trazer todo mundo, né?”, explica Liliane, presa há dez meses por tráfico de drogas.
Mãe de quatro filhos, Liliane espera que ao menos um deles apareça.
“O mais velho, com dez anos, achou melhor não vir. Ele já entende e fica abalado. O menor é muito novinho, tem dois meses de vida, acho que não vem. Mas queria ver, pelo menos, a de sete e o de três anos.”
- Renata e Sônia
A esperança de Liliane não é compartilhada com a colega Renata. Mãe de cinco filhos e na terceira passagem pela prisão, também por tráfico, Renata sabe que os filhos não virão. “Ninguém traz mesmo. Só mato a saudade por cartas. Ver, de verdade, só quando eu sair daqui”, conforma-se.
Enquanto continua presa, Renata tenta driblar a saudade. “No dia de visita, pego os filhos das colegas. Fico com eles no colo um pouquinho, só pra lembrar como é bom”.
O amor da filha de nove anos é o principal combustível para a recuperação de Sônia. Aos quarenta anos, recém-separada do marido, Sônia se envolveu, no final de 2004, com um presidiário.
As visitas à penitenciária se tornaram freqüentes até que, em fevereiro de 2005, Sônia foi flagrada tentando entrar no presídio com drogas.
“Fui ameaçada e não tive alternativa. Mas estava tão nervosa que logo perceberam que havia algo errado”, relembra.
Presa, Sônia se viu sozinha e rejeitada pelos dois filhos mais velhos.
“Eles não quiseram me ouvir. Não querem me perdoar”, conta ela, em meio às lágrimas. O único consolo da detenta são as visitas semanais da filha caçula, de nove anos.
Sônia sonha com o dia em que voltará para casa.
“O que mais quero na vida é merecer o amor da minha filha e conquistar o perdão dos outros. Quero muito sair daqui pra revê-los e pedir perdão, me explicar. Dizer que errei, mas que os amo e preciso deles ao meu lado.”
- Mãe e filha, presas
Ver o filho cruzar o portão de entrada da cadeia nos dias de visita é um momento único de alegria para as mães. Mas, para Andréia (35 anos), o dia em que sua filha Rafaela (18) apontou no corredor da penitenciária representou a lembrança de “uma experiência ruim”.
“Houve uma movimentação de gente nova chegando e as meninas [presas] disseram ‘tem uma garota perguntando pela mãe aqui’. Quando olhei, era a Rafaela, que levantou os braços e me mostrou as mãos algemadas. Desmaiei na hora”, relembra Andréa, com olhar distante.
Andréa está presa há três meses. Sua filha Rafaela chegou um mês depois. Ambos aguardam julgamento para a acusação de assalto.
Embora encontrem apoio uma na outra, Andréia e Rafaela vivem angústias e dilemas.
Rafaela é mãe de um menino de dois anos e leva dentro de si o segundo faz quatro meses. Andréia acompanha Rafaela de perto, mas divide a preocupação e o pensamento com seus outros quatro filhos que ficaram lá fora.
“É muito difícil, uma mistura de sentimentos. Estar presa e ver minha filha presa e grávida. E ainda por cima, pensar que os outros, mais novos do que ela, estão sem mim lá fora”, desabafa Andréia.
“Muito complicado agüentar essa situação. Longe do meu filho, e grávida de outro. Se minha mãe não estivesse aqui, não sei o que seria”, afirma Rafaela, acrescentando que a proximidade com a mãe é algo novo para as duas.
“A gente não se falava há um tempão. Estávamos brigadas e cada uma vivia sua vida. Depois que eu cheguei aqui, esquecemos tudo. Aqui, somos só nós duas”, revela, com espontaneidade.
Enquanto esperam o que vai acontecer em suas vidas, vivem esse novo relacionamento de amizade entre mãe e filha, uma das raras “coisas boas” que aconteceram desde que foram presas, como elas mesmas dizem.
“Espero que minha filha não passe a gravidez inteira aqui dentro. Assim como eu também quero sair logo daqui. Para nós duas é uma situação estranha. Uma torce para que a outra saia, mas, ao mesmo tempo, fica aquela insegurança. Se ela sair antes de mim, como eu vou agüentar ficar aqui?”, pergunta-se Andréia.
* Reportagem escrita por Aiandra Alves Mariano e Fernanda Maria Ribeiro, publicada no Texto Vivo.
É dia de festa. As anfitriãs acordam cedo e tratam de tomar banho. A próxima tarefa é pendurar bexigas coloridas no pátio, numa tentativa de alegrar o ambiente normalmente sombrio.
Do lado de fora, crianças e adultos formam uma fila. A espera é barulhenta. Conversas, risinhos e choros infantis se confundem. Os adultos carregam sacolas que exalam um cheirinho bom, de comida nova.
Entram aos pares e a cada entrada há gritinhos de alegria, choros emocionados e exclamações de saudade.
Estamos na Cadeia Feminina de Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, num dia de visita anterior ao segundo domingo de maio. Mães encarceradas iriam comemorar com os filhos o Dia das Mães.
“Hoje é dia de festa. O diretor deixou que as visitas entrassem mais cedo. Vamos poder almoçar com nossos filhos, trocar fralda, pôr pra dormir. Uma delícia!”, festeja Liliane (atendemos às solicitações para não mencionar os verdadeiros nomes das presidiárias e de seus filhos). Liliane tem 28 anos.
Se o dia de visitas já é ansiosamente esperado pelas 57 mulheres deste presídio, imaginem para as que são mães (90% delas).
“Acho que hoje minha mãe vai trazer meus filhos. Quase nunca eles vêm, porque fica caro trazer todo mundo, né?”, explica Liliane, presa há dez meses por tráfico de drogas.
Mãe de quatro filhos, Liliane espera que ao menos um deles apareça.
“O mais velho, com dez anos, achou melhor não vir. Ele já entende e fica abalado. O menor é muito novinho, tem dois meses de vida, acho que não vem. Mas queria ver, pelo menos, a de sete e o de três anos.”
- Renata e Sônia
A esperança de Liliane não é compartilhada com a colega Renata. Mãe de cinco filhos e na terceira passagem pela prisão, também por tráfico, Renata sabe que os filhos não virão. “Ninguém traz mesmo. Só mato a saudade por cartas. Ver, de verdade, só quando eu sair daqui”, conforma-se.
Enquanto continua presa, Renata tenta driblar a saudade. “No dia de visita, pego os filhos das colegas. Fico com eles no colo um pouquinho, só pra lembrar como é bom”.
O amor da filha de nove anos é o principal combustível para a recuperação de Sônia. Aos quarenta anos, recém-separada do marido, Sônia se envolveu, no final de 2004, com um presidiário.
As visitas à penitenciária se tornaram freqüentes até que, em fevereiro de 2005, Sônia foi flagrada tentando entrar no presídio com drogas.
“Fui ameaçada e não tive alternativa. Mas estava tão nervosa que logo perceberam que havia algo errado”, relembra.
Presa, Sônia se viu sozinha e rejeitada pelos dois filhos mais velhos.
“Eles não quiseram me ouvir. Não querem me perdoar”, conta ela, em meio às lágrimas. O único consolo da detenta são as visitas semanais da filha caçula, de nove anos.
Sônia sonha com o dia em que voltará para casa.
“O que mais quero na vida é merecer o amor da minha filha e conquistar o perdão dos outros. Quero muito sair daqui pra revê-los e pedir perdão, me explicar. Dizer que errei, mas que os amo e preciso deles ao meu lado.”
- Mãe e filha, presas
Ver o filho cruzar o portão de entrada da cadeia nos dias de visita é um momento único de alegria para as mães. Mas, para Andréia (35 anos), o dia em que sua filha Rafaela (18) apontou no corredor da penitenciária representou a lembrança de “uma experiência ruim”.
“Houve uma movimentação de gente nova chegando e as meninas [presas] disseram ‘tem uma garota perguntando pela mãe aqui’. Quando olhei, era a Rafaela, que levantou os braços e me mostrou as mãos algemadas. Desmaiei na hora”, relembra Andréa, com olhar distante.
Andréa está presa há três meses. Sua filha Rafaela chegou um mês depois. Ambos aguardam julgamento para a acusação de assalto.
Embora encontrem apoio uma na outra, Andréia e Rafaela vivem angústias e dilemas.
Rafaela é mãe de um menino de dois anos e leva dentro de si o segundo faz quatro meses. Andréia acompanha Rafaela de perto, mas divide a preocupação e o pensamento com seus outros quatro filhos que ficaram lá fora.
“É muito difícil, uma mistura de sentimentos. Estar presa e ver minha filha presa e grávida. E ainda por cima, pensar que os outros, mais novos do que ela, estão sem mim lá fora”, desabafa Andréia.
“Muito complicado agüentar essa situação. Longe do meu filho, e grávida de outro. Se minha mãe não estivesse aqui, não sei o que seria”, afirma Rafaela, acrescentando que a proximidade com a mãe é algo novo para as duas.
“A gente não se falava há um tempão. Estávamos brigadas e cada uma vivia sua vida. Depois que eu cheguei aqui, esquecemos tudo. Aqui, somos só nós duas”, revela, com espontaneidade.
Enquanto esperam o que vai acontecer em suas vidas, vivem esse novo relacionamento de amizade entre mãe e filha, uma das raras “coisas boas” que aconteceram desde que foram presas, como elas mesmas dizem.
“Espero que minha filha não passe a gravidez inteira aqui dentro. Assim como eu também quero sair logo daqui. Para nós duas é uma situação estranha. Uma torce para que a outra saia, mas, ao mesmo tempo, fica aquela insegurança. Se ela sair antes de mim, como eu vou agüentar ficar aqui?”, pergunta-se Andréia.
* Reportagem escrita por Aiandra Alves Mariano e Fernanda Maria Ribeiro, publicada no Texto Vivo.
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Caminhos incertos
O cotidiano dos recifenses que cruzam a cidade dentro de um coletivo
Início de uma tarde de quinta-feira no Recife. Quilômetros de automóveis cruzam, de canto a canto, a capital pernambucana, enquanto o ônibus da linha Barbalho (Detran) sai da Rua Guilherme Pinto, nas Graças, em direção ao centro da cidade. Com exceção das seis cadeiras que ficam antes da catraca, reservadas para gestantes, idosos e pessoas com necessidades especiais, o coletivo segue cheio, principalmente de estudantes colegiais. Por aquela catraca passa o cantador, que faz arte tomando cuidado para não perder o equilíbrio com o balanço do ônibus e nem perder a rima. Tudo para conseguir alguns trocados. Passa também o vendedor de doces, e o porteiro, e a dona-de-casa, e o advogado. É assim dia após dia, gente de toda parte se cruzando e cruzando a cidade. Por isso, andar de ônibus pode ser uma experiência riquíssima. Porque às vezes se observa, às vezes se é observado. Às vezes se ensina e sempre se aprende.
Apertadas, algumas pessoas permanecem de pé. O rádio, sintonizado na estação Recife FM (97.5), embala o romance do jovem casal de namorados, que se encontra nas duas primeiras cadeiras do coletivo, ao som da dupla sertaneja Bruno e Marrone: “Ficar por ficar eu não quero/ Beijar por beijar eu tô fora/ Menina vê se leva a sério/ Vê se não pisa na bola”. À parte as carícias do casalzinho, o papo animado de duas mulheres e uma ou outra conversa paralela, os passageiros seguem silenciosos, submersos nos próprios pensamentos.
O coletivo passa pela Rua Princesa Isabel, Avenida Dantas Barreto, Rua Cleto Campêlo, Avenida Guararapes e Avenida Conde da Boa Vista, onde pára nas estações Aurora, Gervásio Pires, Soledade e Padre Inês, respectivamente, e segue cortando a cidade do Recife. Após passar 30 minutos na Conde da Boa Vista, volta pelo Corredor Leste-Oeste, faixa exclusiva de ônibus, recentemente inaugurada, após reforma realizada pela Prefeitura do Recife, que liga a Zona Oeste ao centro da cidade.
Apertadas, algumas pessoas permanecem de pé. O rádio, sintonizado na estação Recife FM (97.5), embala o romance do jovem casal de namorados, que se encontra nas duas primeiras cadeiras do coletivo, ao som da dupla sertaneja Bruno e Marrone: “Ficar por ficar eu não quero/ Beijar por beijar eu tô fora/ Menina vê se leva a sério/ Vê se não pisa na bola”. À parte as carícias do casalzinho, o papo animado de duas mulheres e uma ou outra conversa paralela, os passageiros seguem silenciosos, submersos nos próprios pensamentos.
O coletivo passa pela Rua Princesa Isabel, Avenida Dantas Barreto, Rua Cleto Campêlo, Avenida Guararapes e Avenida Conde da Boa Vista, onde pára nas estações Aurora, Gervásio Pires, Soledade e Padre Inês, respectivamente, e segue cortando a cidade do Recife. Após passar 30 minutos na Conde da Boa Vista, volta pelo Corredor Leste-Oeste, faixa exclusiva de ônibus, recentemente inaugurada, após reforma realizada pela Prefeitura do Recife, que liga a Zona Oeste ao centro da cidade.
“Divorciado graças a Deus”
É possível se deparar com todo tipo de gente nesse ‘carregador de vidas’, desde o menino chorando no colo da mãe ao adolescente antenado, que viaja ouvindo música no aparelho de MP3. Por isso, quando se entra no ônibus os preconceitos devem ser deixados em casa e os conceitos pré-fabricados devem ser esquecidos. Em lugares assim é que se encontra pessoas como Álvaro Pinto Monteiro Filho, que tem 52 anos, está “divorciado graças a Deus”, como ele mesmo declara, e pesa 115 quilos. Devido ao calor que faz no Recife e ao excesso de peso, que dificulta ainda mais a vida nos trópicos, Álvaro transpira demasiadamente. A roupa branca gruda no corpo. Carrega consigo uma garrafa com água e uma toalhinha branca, onde enxuga constantemente as mãos suadas, tudo para diminuir o desconforto. A imagem do homem gordo e carrancudo de voz grossa, rosto marcado pelo tempo e pelas acnes que teve quando jovem, e que exige a carteira de identificação de todos os estudantes, contrasta com o homem vaidoso, que penteia o cabelo grisalho e passa perfume durante a viagem. Álvaro não é o mais realizado de todos os homens. Não se pode dizer, sequer, que a sua vida seja pautada por alguma realização. Formado em Administração de empresas, trabalhou como bancário por mais de 20 anos, até que a empresa onde trabalhava faliu e ele se viu obrigado a atuar como cobrador de ônibus, ofício que exerce há 11 anos. Detesta ser cobrador. Diz que está pagando os pecados no exercício da profissão. E a penitência diária começa cedo, às 5h40 da manhã, e só termina às 14h, isso se não for necessário fazer alguma viagem extra.
O trânsito lento da cidade e os passageiros, que muitas vezes se revelam impacientes, fazem a rotina parecer ainda mais pesada. “O pior de ser cobrador é ter que responder às perguntas idiotas que as pessoas fazem. Uma vez uma mulher me perguntou: ‘cobrador esse ônibus vai à praia?’, eu respondi: ‘vai, moça, arrume uma tanga pra ele’. Ela ficou irritada”. Na verdade, triste não é ser cobrador, triste é a memória dos tempos de bancário. Mas apesar de tudo, Álvaro segue de pé, enfrentando os obstáculos e sorrindo, entre um intervalo e outro, porque ninguém é de ferro. E é isso que o diferencia.
Mantém-se à espreita, sem perder de vista quem entra. Já viu de tudo sentado naquela cadeira, vê de tudo todos os dias, até acabar o turno e descer do ônibus em definitivo. Naquela quinta-feira, por exemplo, viu três meninas rirem descontroladamente a bordo do coletivo, viu outros tantos meninos venderem pipoca nas ruas e correrem entre os carros, viu uma mulher pedir esmola na calçada, de mãos dadas com duas crianças, sujas e semi-nuas e viu quando, do outro lado da calçada, um grupo de hippies vendia artesanato. Presenciou também a dificuldade de uma senhora meio gordinha, de passos lentos, atravessar a rua e não pôde deixar de comentar quando ali, perto dele, um jovem rapaz não cedeu a cadeira a uma outra senhora, aparentemente tão velhinha quanto aquela.
Já cansado, após atravessar a Avenida Caxangá, e quando achou que os olhos não suportariam ver mais nada, chegou ao ponto final, na Rua Jornalista Posidônio Bastos Cavalcanti, bairro do Detran, exatamente às 13h45. A essa altura, apenas três pessoas se preparavam para descer no último ponto. E foram necessários mais dez minutos para que o próximo coletivo saísse, já com cinco pessoas a bordo. Ao volante, um homem magro, de cabelos pretos e óculos de grau.
José Roberto Lobão, o Zé, sempre quis ser caminhoneiro. Essa foi a profissão do seu avô, do seu pai e da maioria dos homens da família. Quando menino, costumava brincar com os carrinhos de madeira que ganhava do pai e se imaginar dirigindo carretas enormes. Zé não virou carreteiro, mas hoje, com 34 anos, casado e pai de uma menina, dirige ônibus e se mostra completamente apaixonado pela profissão. Ele fala alto, conta piadinhas que beiram o assanhamento e não pára de sorrir um só instante. Falar da profissão o deixa empolgado e ele começa a relatar histórias, como quando o radiador do ônibus explodiu e o deixou com o rosto todo queimado, obrigando-o a ficar três meses afastado do volante. Reclama da lentidão do trânsito, que enfrenta há sete anos, das 6h19 às 20h30 e se declara contrário à reforma realizada pela Prefeitura do Recife. Para cada mulher que entra no ônibus, Zé abre um sorriso largo. Quando entra uma morena jovem e simpática, então, ele declara: “a melhor parte da profissão é essa, quando o pessoal sobe no carro, diz obrigado e bom dia”. Continua sem parar de falar. E de sorrir. Finge que não vê a placa de “fale com o motorista somente o indispensável” e segue eufórico, quase verborrágico. Tem orgulho da profissão que exerce. Sorrisos, sorrisos, sorrisos, aos montes, porque para Zé contentamento pouco é bobagem.
E ele gosta mesmo é da Rádio ClubeFM (99.1), na qual são constantes traduções de músicas românticas cantadas por artistas internacionais. Nada mais adequado, já que ele se declara um incansável romântico. Enquanto cruza a cidade, deixando as pessoas em seus destinos, escuta a tradução de My heart you go on, sucesso da cantora canadense Celine Dion: “Every night in my dreams/ I see you, I feel you/ That is how I know you will go on”. [Todas as noites nos meus sonhos/ Eu vejo você, eu sinto você/ Isso é como eu sei que você continua].
Cada passageiro, um destino
Já passava das 15h quando Maria Aparecida, 28, entrou no ônibus lotado. Passaria despercebida no meio de tanta gente, não fosse pelo barulho do saco plástico que trazia nas mãos, pelo excesso de peso, que dificulta seu trânsito entre os outros passageiros (foi à custa de muito “com licença, senhor”, “com licença, senhora”, “tu me deixa passar?”, que chegou às últimas cadeiras do coletivo) e pelo forte cheiro oriundo do seu cabelo. Acontece que Maria é uma moça muito vaidosa e não dispensa o creme de pentear da lista de supermercado. Já se vê pelos cabelos pretos, quase molhados, presos com uma fita cor de rosa, pelo salto alto que mal sustenta o peso do corpo, pelo batom vermelho, pela blusa decotada e a sombra azul em cima dos olhos. Tudo, cuidadosamente, organizado. Maria Aparecida é empregada doméstica, acorda às 5h e vai e volta do trabalho de coletivo, todos os dias. “De manha é tranqüilo, tem pouca gente no ônibus. Ruim mesmo é agora. Os ônibus estão sempre lotados e eu, que sou gorda, sofro dentro deles”, diz. Mas apesar das dificuldades, Maria não perde o bom humor. Entre um e outro aperto, uma e outra piadinha de mau gosto por causa do físico fora dos padrões, ela segue mastigando chiclete e rindo das Ligações Perigosas, quadro da rádio ClubeFM no qual os ouvintes enviam o próprio número de telefone acompanhado de um perfil para serem divulgados na rádio, à procura de outras pessoas para se relacionarem.
- Moreno, 35 anos, procura mulheres entre 25 e 35 anos que queiram um relacionamento sério, anuncia a locutora.
“É de um desses que eu preciso, acho que vou ligar”, diz e cai na gargalhada. Maria mantém o bom humor até quando, previsivelmente, o ônibus pára. É o tal congestionamento que tira a paciência dos tranqüilos, atrasa os pontuais e, ao que parece, se repetirá por muitos dias ainda. Pelo menos enquanto Recife for essa metrópole cheia de pontes, avenidas estreitas e automóveis circulando por toda parte.
Já são 16h20 na tarde recifense. O sol ultrapassa o pára-brisa e deixa o coletivo abafado. No lado esquerdo então, onde os raios solares entram com mais intensidade, o calor é quase insuportável. Aos incomodados, resta mudar de lado. Ou fazer como a mulher negra, de estatura mediana, camiseta azul, alguns dentes faltando e uma pulseirinha de plástico colorida no braço direito com os dizeres em inglês: stop racism, que ao perceber que o motorista não a deixaria no seu destino final, gritou: “vai desceeeer!”.
E assim, entre um e outro “vai descer!”, a viagem segue. Cada destino, um passageiro, cada passageiro, uma história. Não se sabe se a cidade constrói os ônibus, que carregam um povo e sua identidade ou se os ônibus, ao carregar pessoas tão distintas, para lugares tão inusitados, constroem a cidade. A impressão que se tem é que as ruas se confundem com as pessoas e não é possível distinguir onde começa e termina, nem o que se esconde por trás das histórias peculiares dos recifenses que vão e voltam.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
A vida vista lá do alto
A ladeira parece não ter fim. Quanto mais se sobe, mais se tem vontade de desistir. Isso é o que diria qualquer turista que fosse visitá-lo pela primeira vez, mas para os conhecedores do lugar encantado o esforço parece ser recompensador. Famoso por sua diversidade gastronômica e artesanal, o local parece ser muito mais do que isso. Ele é mágico. Quando enfim avistamos o mar damos graças a quem quer que seja o criador de tamanha formosura.Filho mais querido da Marim dos Caetés, o Alto da Sé é um dos pontos turísticos mais visitados pelos admiradores da cultura pernambucana. A arte sacra da igreja da Sé, os cultos afro-brasileiros do Palácio de Iemanjá, as lojinhas de artesanato e as famosas tapioqueiras compõem um dos cenários mais diversificados e atraentes de Pernambuco. Para todos os lados que se olhe sempre há um casal usando a bela vista como plano de fundo para a posteridade, uma família que apresenta ao filho os sabores da vida, um hippie vendendo colarzinhos com a nítida intenção de tomar umas e outras com a féria do dia ou alguém que simplesmente viaja solitário na paisagem.Os anos não tiraram o brilho de uma jovem e imponente senhora que parece convidar fiéis ou não, para entrar e visitar seu jardim.
A igreja da Sé, datada de 1535, possui a vista que certa vez alguém me disse ser a mais linda que já viu. De fato pude comprovar, é o ponto em que as duas cidades irmãs, Recife e Olinda, ficam mais graciosas, principalmente ao entardecer. Mas aos domingos também é possível conferir no Alto as apresentações de afoxé e capoeira, o que denota o grande coração de Olinda, que é capaz de abrigar tão diferentes manifestações. Talvez esse coração abrigue tudo porque todos, no fim, têm o mesmo propósito de abrilhantar a vida da cidade patrimônio.A efervescência cultural do Estado está em Olinda, reduto de poetas, músicos e artistas plásticos, mas também de gente simples que como em todo lugar acorda cedo para batalhar o pão vendendo suas rendas, bonecas de argila, bolsas coloridas e sandálias de couro. A cidade é também dos artesãos, artistas de rua e cantadores como José e Genaro, uma dupla que improvisa no Alto da Sé poesia popular de cunho enaltecedor e põe sorrisos nos rostos de quem degusta a tapioca de queijo com coco.A famosa tapioca já ganhou variações aprovadas pelos freqüentadores da Sé. São recheios doces e salgados, mas para os indecisos vai a dica de Dona Zeinha, tapioqueira a 32 anos no local. “Tapioca de queijo com goiabada, a Romeu e Julieta, tem uma saída muito grande com quem fica indeciso entre os sabores. Mas eu sempre digo que quem come de qualquer uma das minhas tapiocas vira fã”, conta a simpática vendedora.Olinda pela manhã acorda sonolenta como qualquer outra cidade, do tipo que faz careta quando o sol insiste em bater a janela. À tardinha já está esperta porque sua vida é mesmo lá no alto, quando os batuques anunciam o maracatu que vem trazendo a noite e subindo a ladeira, o que faz toda a gente se orgulhar de estar aqui, de gostar daqui e de ser daqui com muito prazer.
terça-feira, 13 de maio de 2008
O primeiro retalho
Chega uma hora em que calar não é mais possível. Comunicar se torna quase uma necessidade fisiológica. E foi por acreditar que as coisas mudam quando a gente comunica que criamos o Retalhos de Cetim. A partir de agora, a nossa necessidade de externalizar será atendida. Sempre que possível haverá um texto diferente, contando as histórias diversas de uma gente que vive anônima, ofuscada pela miopia nossa de cada dia. Uma página para ser lida como quem toma um café, conversa na calçada ou conserta com retalhos um pedaço de pano qualquer. O nosso objetivo é tão somente descobrir e contar histórias, inusitadas ou não, da vida do outro. Porque saber do outro não deixa de ser uma forma de saber de si. E saber de si é o primeiro passo para se viver bem em qualquer comunidade humana.
Bem vindos!!!
Bem vindos!!!
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