- Liliane
É dia de festa. As anfitriãs acordam cedo e tratam de tomar banho. A próxima tarefa é pendurar bexigas coloridas no pátio, numa tentativa de alegrar o ambiente normalmente sombrio.
Do lado de fora, crianças e adultos formam uma fila. A espera é barulhenta. Conversas, risinhos e choros infantis se confundem. Os adultos carregam sacolas que exalam um cheirinho bom, de comida nova.
Entram aos pares e a cada entrada há gritinhos de alegria, choros emocionados e exclamações de saudade.
Estamos na Cadeia Feminina de Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, num dia de visita anterior ao segundo domingo de maio. Mães encarceradas iriam comemorar com os filhos o Dia das Mães.
“Hoje é dia de festa. O diretor deixou que as visitas entrassem mais cedo. Vamos poder almoçar com nossos filhos, trocar fralda, pôr pra dormir. Uma delícia!”, festeja Liliane (atendemos às solicitações para não mencionar os verdadeiros nomes das presidiárias e de seus filhos). Liliane tem 28 anos.
Se o dia de visitas já é ansiosamente esperado pelas 57 mulheres deste presídio, imaginem para as que são mães (90% delas).
“Acho que hoje minha mãe vai trazer meus filhos. Quase nunca eles vêm, porque fica caro trazer todo mundo, né?”, explica Liliane, presa há dez meses por tráfico de drogas.
Mãe de quatro filhos, Liliane espera que ao menos um deles apareça.
“O mais velho, com dez anos, achou melhor não vir. Ele já entende e fica abalado. O menor é muito novinho, tem dois meses de vida, acho que não vem. Mas queria ver, pelo menos, a de sete e o de três anos.”
- Renata e Sônia
A esperança de Liliane não é compartilhada com a colega Renata. Mãe de cinco filhos e na terceira passagem pela prisão, também por tráfico, Renata sabe que os filhos não virão. “Ninguém traz mesmo. Só mato a saudade por cartas. Ver, de verdade, só quando eu sair daqui”, conforma-se.
Enquanto continua presa, Renata tenta driblar a saudade. “No dia de visita, pego os filhos das colegas. Fico com eles no colo um pouquinho, só pra lembrar como é bom”.
O amor da filha de nove anos é o principal combustível para a recuperação de Sônia. Aos quarenta anos, recém-separada do marido, Sônia se envolveu, no final de 2004, com um presidiário.
As visitas à penitenciária se tornaram freqüentes até que, em fevereiro de 2005, Sônia foi flagrada tentando entrar no presídio com drogas.
“Fui ameaçada e não tive alternativa. Mas estava tão nervosa que logo perceberam que havia algo errado”, relembra.
Presa, Sônia se viu sozinha e rejeitada pelos dois filhos mais velhos.
“Eles não quiseram me ouvir. Não querem me perdoar”, conta ela, em meio às lágrimas. O único consolo da detenta são as visitas semanais da filha caçula, de nove anos.
Sônia sonha com o dia em que voltará para casa.
“O que mais quero na vida é merecer o amor da minha filha e conquistar o perdão dos outros. Quero muito sair daqui pra revê-los e pedir perdão, me explicar. Dizer que errei, mas que os amo e preciso deles ao meu lado.”
- Mãe e filha, presas
Ver o filho cruzar o portão de entrada da cadeia nos dias de visita é um momento único de alegria para as mães. Mas, para Andréia (35 anos), o dia em que sua filha Rafaela (18) apontou no corredor da penitenciária representou a lembrança de “uma experiência ruim”.
“Houve uma movimentação de gente nova chegando e as meninas [presas] disseram ‘tem uma garota perguntando pela mãe aqui’. Quando olhei, era a Rafaela, que levantou os braços e me mostrou as mãos algemadas. Desmaiei na hora”, relembra Andréa, com olhar distante.
Andréa está presa há três meses. Sua filha Rafaela chegou um mês depois. Ambos aguardam julgamento para a acusação de assalto.
Embora encontrem apoio uma na outra, Andréia e Rafaela vivem angústias e dilemas.
Rafaela é mãe de um menino de dois anos e leva dentro de si o segundo faz quatro meses. Andréia acompanha Rafaela de perto, mas divide a preocupação e o pensamento com seus outros quatro filhos que ficaram lá fora.
“É muito difícil, uma mistura de sentimentos. Estar presa e ver minha filha presa e grávida. E ainda por cima, pensar que os outros, mais novos do que ela, estão sem mim lá fora”, desabafa Andréia.
“Muito complicado agüentar essa situação. Longe do meu filho, e grávida de outro. Se minha mãe não estivesse aqui, não sei o que seria”, afirma Rafaela, acrescentando que a proximidade com a mãe é algo novo para as duas.
“A gente não se falava há um tempão. Estávamos brigadas e cada uma vivia sua vida. Depois que eu cheguei aqui, esquecemos tudo. Aqui, somos só nós duas”, revela, com espontaneidade.
Enquanto esperam o que vai acontecer em suas vidas, vivem esse novo relacionamento de amizade entre mãe e filha, uma das raras “coisas boas” que aconteceram desde que foram presas, como elas mesmas dizem.
“Espero que minha filha não passe a gravidez inteira aqui dentro. Assim como eu também quero sair logo daqui. Para nós duas é uma situação estranha. Uma torce para que a outra saia, mas, ao mesmo tempo, fica aquela insegurança. Se ela sair antes de mim, como eu vou agüentar ficar aqui?”, pergunta-se Andréia.
* Reportagem escrita por Aiandra Alves Mariano e Fernanda Maria Ribeiro, publicada no Texto Vivo.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Caminhos incertos
O cotidiano dos recifenses que cruzam a cidade dentro de um coletivo
Início de uma tarde de quinta-feira no Recife. Quilômetros de automóveis cruzam, de canto a canto, a capital pernambucana, enquanto o ônibus da linha Barbalho (Detran) sai da Rua Guilherme Pinto, nas Graças, em direção ao centro da cidade. Com exceção das seis cadeiras que ficam antes da catraca, reservadas para gestantes, idosos e pessoas com necessidades especiais, o coletivo segue cheio, principalmente de estudantes colegiais. Por aquela catraca passa o cantador, que faz arte tomando cuidado para não perder o equilíbrio com o balanço do ônibus e nem perder a rima. Tudo para conseguir alguns trocados. Passa também o vendedor de doces, e o porteiro, e a dona-de-casa, e o advogado. É assim dia após dia, gente de toda parte se cruzando e cruzando a cidade. Por isso, andar de ônibus pode ser uma experiência riquíssima. Porque às vezes se observa, às vezes se é observado. Às vezes se ensina e sempre se aprende.
Apertadas, algumas pessoas permanecem de pé. O rádio, sintonizado na estação Recife FM (97.5), embala o romance do jovem casal de namorados, que se encontra nas duas primeiras cadeiras do coletivo, ao som da dupla sertaneja Bruno e Marrone: “Ficar por ficar eu não quero/ Beijar por beijar eu tô fora/ Menina vê se leva a sério/ Vê se não pisa na bola”. À parte as carícias do casalzinho, o papo animado de duas mulheres e uma ou outra conversa paralela, os passageiros seguem silenciosos, submersos nos próprios pensamentos.
O coletivo passa pela Rua Princesa Isabel, Avenida Dantas Barreto, Rua Cleto Campêlo, Avenida Guararapes e Avenida Conde da Boa Vista, onde pára nas estações Aurora, Gervásio Pires, Soledade e Padre Inês, respectivamente, e segue cortando a cidade do Recife. Após passar 30 minutos na Conde da Boa Vista, volta pelo Corredor Leste-Oeste, faixa exclusiva de ônibus, recentemente inaugurada, após reforma realizada pela Prefeitura do Recife, que liga a Zona Oeste ao centro da cidade.
Apertadas, algumas pessoas permanecem de pé. O rádio, sintonizado na estação Recife FM (97.5), embala o romance do jovem casal de namorados, que se encontra nas duas primeiras cadeiras do coletivo, ao som da dupla sertaneja Bruno e Marrone: “Ficar por ficar eu não quero/ Beijar por beijar eu tô fora/ Menina vê se leva a sério/ Vê se não pisa na bola”. À parte as carícias do casalzinho, o papo animado de duas mulheres e uma ou outra conversa paralela, os passageiros seguem silenciosos, submersos nos próprios pensamentos.
O coletivo passa pela Rua Princesa Isabel, Avenida Dantas Barreto, Rua Cleto Campêlo, Avenida Guararapes e Avenida Conde da Boa Vista, onde pára nas estações Aurora, Gervásio Pires, Soledade e Padre Inês, respectivamente, e segue cortando a cidade do Recife. Após passar 30 minutos na Conde da Boa Vista, volta pelo Corredor Leste-Oeste, faixa exclusiva de ônibus, recentemente inaugurada, após reforma realizada pela Prefeitura do Recife, que liga a Zona Oeste ao centro da cidade.
“Divorciado graças a Deus”
É possível se deparar com todo tipo de gente nesse ‘carregador de vidas’, desde o menino chorando no colo da mãe ao adolescente antenado, que viaja ouvindo música no aparelho de MP3. Por isso, quando se entra no ônibus os preconceitos devem ser deixados em casa e os conceitos pré-fabricados devem ser esquecidos. Em lugares assim é que se encontra pessoas como Álvaro Pinto Monteiro Filho, que tem 52 anos, está “divorciado graças a Deus”, como ele mesmo declara, e pesa 115 quilos. Devido ao calor que faz no Recife e ao excesso de peso, que dificulta ainda mais a vida nos trópicos, Álvaro transpira demasiadamente. A roupa branca gruda no corpo. Carrega consigo uma garrafa com água e uma toalhinha branca, onde enxuga constantemente as mãos suadas, tudo para diminuir o desconforto. A imagem do homem gordo e carrancudo de voz grossa, rosto marcado pelo tempo e pelas acnes que teve quando jovem, e que exige a carteira de identificação de todos os estudantes, contrasta com o homem vaidoso, que penteia o cabelo grisalho e passa perfume durante a viagem. Álvaro não é o mais realizado de todos os homens. Não se pode dizer, sequer, que a sua vida seja pautada por alguma realização. Formado em Administração de empresas, trabalhou como bancário por mais de 20 anos, até que a empresa onde trabalhava faliu e ele se viu obrigado a atuar como cobrador de ônibus, ofício que exerce há 11 anos. Detesta ser cobrador. Diz que está pagando os pecados no exercício da profissão. E a penitência diária começa cedo, às 5h40 da manhã, e só termina às 14h, isso se não for necessário fazer alguma viagem extra.
O trânsito lento da cidade e os passageiros, que muitas vezes se revelam impacientes, fazem a rotina parecer ainda mais pesada. “O pior de ser cobrador é ter que responder às perguntas idiotas que as pessoas fazem. Uma vez uma mulher me perguntou: ‘cobrador esse ônibus vai à praia?’, eu respondi: ‘vai, moça, arrume uma tanga pra ele’. Ela ficou irritada”. Na verdade, triste não é ser cobrador, triste é a memória dos tempos de bancário. Mas apesar de tudo, Álvaro segue de pé, enfrentando os obstáculos e sorrindo, entre um intervalo e outro, porque ninguém é de ferro. E é isso que o diferencia.
Mantém-se à espreita, sem perder de vista quem entra. Já viu de tudo sentado naquela cadeira, vê de tudo todos os dias, até acabar o turno e descer do ônibus em definitivo. Naquela quinta-feira, por exemplo, viu três meninas rirem descontroladamente a bordo do coletivo, viu outros tantos meninos venderem pipoca nas ruas e correrem entre os carros, viu uma mulher pedir esmola na calçada, de mãos dadas com duas crianças, sujas e semi-nuas e viu quando, do outro lado da calçada, um grupo de hippies vendia artesanato. Presenciou também a dificuldade de uma senhora meio gordinha, de passos lentos, atravessar a rua e não pôde deixar de comentar quando ali, perto dele, um jovem rapaz não cedeu a cadeira a uma outra senhora, aparentemente tão velhinha quanto aquela.
Já cansado, após atravessar a Avenida Caxangá, e quando achou que os olhos não suportariam ver mais nada, chegou ao ponto final, na Rua Jornalista Posidônio Bastos Cavalcanti, bairro do Detran, exatamente às 13h45. A essa altura, apenas três pessoas se preparavam para descer no último ponto. E foram necessários mais dez minutos para que o próximo coletivo saísse, já com cinco pessoas a bordo. Ao volante, um homem magro, de cabelos pretos e óculos de grau.
José Roberto Lobão, o Zé, sempre quis ser caminhoneiro. Essa foi a profissão do seu avô, do seu pai e da maioria dos homens da família. Quando menino, costumava brincar com os carrinhos de madeira que ganhava do pai e se imaginar dirigindo carretas enormes. Zé não virou carreteiro, mas hoje, com 34 anos, casado e pai de uma menina, dirige ônibus e se mostra completamente apaixonado pela profissão. Ele fala alto, conta piadinhas que beiram o assanhamento e não pára de sorrir um só instante. Falar da profissão o deixa empolgado e ele começa a relatar histórias, como quando o radiador do ônibus explodiu e o deixou com o rosto todo queimado, obrigando-o a ficar três meses afastado do volante. Reclama da lentidão do trânsito, que enfrenta há sete anos, das 6h19 às 20h30 e se declara contrário à reforma realizada pela Prefeitura do Recife. Para cada mulher que entra no ônibus, Zé abre um sorriso largo. Quando entra uma morena jovem e simpática, então, ele declara: “a melhor parte da profissão é essa, quando o pessoal sobe no carro, diz obrigado e bom dia”. Continua sem parar de falar. E de sorrir. Finge que não vê a placa de “fale com o motorista somente o indispensável” e segue eufórico, quase verborrágico. Tem orgulho da profissão que exerce. Sorrisos, sorrisos, sorrisos, aos montes, porque para Zé contentamento pouco é bobagem.
E ele gosta mesmo é da Rádio ClubeFM (99.1), na qual são constantes traduções de músicas românticas cantadas por artistas internacionais. Nada mais adequado, já que ele se declara um incansável romântico. Enquanto cruza a cidade, deixando as pessoas em seus destinos, escuta a tradução de My heart you go on, sucesso da cantora canadense Celine Dion: “Every night in my dreams/ I see you, I feel you/ That is how I know you will go on”. [Todas as noites nos meus sonhos/ Eu vejo você, eu sinto você/ Isso é como eu sei que você continua].
Cada passageiro, um destino
Já passava das 15h quando Maria Aparecida, 28, entrou no ônibus lotado. Passaria despercebida no meio de tanta gente, não fosse pelo barulho do saco plástico que trazia nas mãos, pelo excesso de peso, que dificulta seu trânsito entre os outros passageiros (foi à custa de muito “com licença, senhor”, “com licença, senhora”, “tu me deixa passar?”, que chegou às últimas cadeiras do coletivo) e pelo forte cheiro oriundo do seu cabelo. Acontece que Maria é uma moça muito vaidosa e não dispensa o creme de pentear da lista de supermercado. Já se vê pelos cabelos pretos, quase molhados, presos com uma fita cor de rosa, pelo salto alto que mal sustenta o peso do corpo, pelo batom vermelho, pela blusa decotada e a sombra azul em cima dos olhos. Tudo, cuidadosamente, organizado. Maria Aparecida é empregada doméstica, acorda às 5h e vai e volta do trabalho de coletivo, todos os dias. “De manha é tranqüilo, tem pouca gente no ônibus. Ruim mesmo é agora. Os ônibus estão sempre lotados e eu, que sou gorda, sofro dentro deles”, diz. Mas apesar das dificuldades, Maria não perde o bom humor. Entre um e outro aperto, uma e outra piadinha de mau gosto por causa do físico fora dos padrões, ela segue mastigando chiclete e rindo das Ligações Perigosas, quadro da rádio ClubeFM no qual os ouvintes enviam o próprio número de telefone acompanhado de um perfil para serem divulgados na rádio, à procura de outras pessoas para se relacionarem.
- Moreno, 35 anos, procura mulheres entre 25 e 35 anos que queiram um relacionamento sério, anuncia a locutora.
“É de um desses que eu preciso, acho que vou ligar”, diz e cai na gargalhada. Maria mantém o bom humor até quando, previsivelmente, o ônibus pára. É o tal congestionamento que tira a paciência dos tranqüilos, atrasa os pontuais e, ao que parece, se repetirá por muitos dias ainda. Pelo menos enquanto Recife for essa metrópole cheia de pontes, avenidas estreitas e automóveis circulando por toda parte.
Já são 16h20 na tarde recifense. O sol ultrapassa o pára-brisa e deixa o coletivo abafado. No lado esquerdo então, onde os raios solares entram com mais intensidade, o calor é quase insuportável. Aos incomodados, resta mudar de lado. Ou fazer como a mulher negra, de estatura mediana, camiseta azul, alguns dentes faltando e uma pulseirinha de plástico colorida no braço direito com os dizeres em inglês: stop racism, que ao perceber que o motorista não a deixaria no seu destino final, gritou: “vai desceeeer!”.
E assim, entre um e outro “vai descer!”, a viagem segue. Cada destino, um passageiro, cada passageiro, uma história. Não se sabe se a cidade constrói os ônibus, que carregam um povo e sua identidade ou se os ônibus, ao carregar pessoas tão distintas, para lugares tão inusitados, constroem a cidade. A impressão que se tem é que as ruas se confundem com as pessoas e não é possível distinguir onde começa e termina, nem o que se esconde por trás das histórias peculiares dos recifenses que vão e voltam.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
A vida vista lá do alto
A ladeira parece não ter fim. Quanto mais se sobe, mais se tem vontade de desistir. Isso é o que diria qualquer turista que fosse visitá-lo pela primeira vez, mas para os conhecedores do lugar encantado o esforço parece ser recompensador. Famoso por sua diversidade gastronômica e artesanal, o local parece ser muito mais do que isso. Ele é mágico. Quando enfim avistamos o mar damos graças a quem quer que seja o criador de tamanha formosura.Filho mais querido da Marim dos Caetés, o Alto da Sé é um dos pontos turísticos mais visitados pelos admiradores da cultura pernambucana. A arte sacra da igreja da Sé, os cultos afro-brasileiros do Palácio de Iemanjá, as lojinhas de artesanato e as famosas tapioqueiras compõem um dos cenários mais diversificados e atraentes de Pernambuco. Para todos os lados que se olhe sempre há um casal usando a bela vista como plano de fundo para a posteridade, uma família que apresenta ao filho os sabores da vida, um hippie vendendo colarzinhos com a nítida intenção de tomar umas e outras com a féria do dia ou alguém que simplesmente viaja solitário na paisagem.Os anos não tiraram o brilho de uma jovem e imponente senhora que parece convidar fiéis ou não, para entrar e visitar seu jardim.
A igreja da Sé, datada de 1535, possui a vista que certa vez alguém me disse ser a mais linda que já viu. De fato pude comprovar, é o ponto em que as duas cidades irmãs, Recife e Olinda, ficam mais graciosas, principalmente ao entardecer. Mas aos domingos também é possível conferir no Alto as apresentações de afoxé e capoeira, o que denota o grande coração de Olinda, que é capaz de abrigar tão diferentes manifestações. Talvez esse coração abrigue tudo porque todos, no fim, têm o mesmo propósito de abrilhantar a vida da cidade patrimônio.A efervescência cultural do Estado está em Olinda, reduto de poetas, músicos e artistas plásticos, mas também de gente simples que como em todo lugar acorda cedo para batalhar o pão vendendo suas rendas, bonecas de argila, bolsas coloridas e sandálias de couro. A cidade é também dos artesãos, artistas de rua e cantadores como José e Genaro, uma dupla que improvisa no Alto da Sé poesia popular de cunho enaltecedor e põe sorrisos nos rostos de quem degusta a tapioca de queijo com coco.A famosa tapioca já ganhou variações aprovadas pelos freqüentadores da Sé. São recheios doces e salgados, mas para os indecisos vai a dica de Dona Zeinha, tapioqueira a 32 anos no local. “Tapioca de queijo com goiabada, a Romeu e Julieta, tem uma saída muito grande com quem fica indeciso entre os sabores. Mas eu sempre digo que quem come de qualquer uma das minhas tapiocas vira fã”, conta a simpática vendedora.Olinda pela manhã acorda sonolenta como qualquer outra cidade, do tipo que faz careta quando o sol insiste em bater a janela. À tardinha já está esperta porque sua vida é mesmo lá no alto, quando os batuques anunciam o maracatu que vem trazendo a noite e subindo a ladeira, o que faz toda a gente se orgulhar de estar aqui, de gostar daqui e de ser daqui com muito prazer.
terça-feira, 13 de maio de 2008
O primeiro retalho
Chega uma hora em que calar não é mais possível. Comunicar se torna quase uma necessidade fisiológica. E foi por acreditar que as coisas mudam quando a gente comunica que criamos o Retalhos de Cetim. A partir de agora, a nossa necessidade de externalizar será atendida. Sempre que possível haverá um texto diferente, contando as histórias diversas de uma gente que vive anônima, ofuscada pela miopia nossa de cada dia. Uma página para ser lida como quem toma um café, conversa na calçada ou conserta com retalhos um pedaço de pano qualquer. O nosso objetivo é tão somente descobrir e contar histórias, inusitadas ou não, da vida do outro. Porque saber do outro não deixa de ser uma forma de saber de si. E saber de si é o primeiro passo para se viver bem em qualquer comunidade humana.
Bem vindos!!!
Bem vindos!!!
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