O cotidiano dos recifenses que cruzam a cidade dentro de um coletivo
Início de uma tarde de quinta-feira no Recife. Quilômetros de automóveis cruzam, de canto a canto, a capital pernambucana, enquanto o ônibus da linha Barbalho (Detran) sai da Rua Guilherme Pinto, nas Graças, em direção ao centro da cidade. Com exceção das seis cadeiras que ficam antes da catraca, reservadas para gestantes, idosos e pessoas com necessidades especiais, o coletivo segue cheio, principalmente de estudantes colegiais. Por aquela catraca passa o cantador, que faz arte tomando cuidado para não perder o equilíbrio com o balanço do ônibus e nem perder a rima. Tudo para conseguir alguns trocados. Passa também o vendedor de doces, e o porteiro, e a dona-de-casa, e o advogado. É assim dia após dia, gente de toda parte se cruzando e cruzando a cidade. Por isso, andar de ônibus pode ser uma experiência riquíssima. Porque às vezes se observa, às vezes se é observado. Às vezes se ensina e sempre se aprende.
Apertadas, algumas pessoas permanecem de pé. O rádio, sintonizado na estação Recife FM (97.5), embala o romance do jovem casal de namorados, que se encontra nas duas primeiras cadeiras do coletivo, ao som da dupla sertaneja Bruno e Marrone: “Ficar por ficar eu não quero/ Beijar por beijar eu tô fora/ Menina vê se leva a sério/ Vê se não pisa na bola”. À parte as carícias do casalzinho, o papo animado de duas mulheres e uma ou outra conversa paralela, os passageiros seguem silenciosos, submersos nos próprios pensamentos.
O coletivo passa pela Rua Princesa Isabel, Avenida Dantas Barreto, Rua Cleto Campêlo, Avenida Guararapes e Avenida Conde da Boa Vista, onde pára nas estações Aurora, Gervásio Pires, Soledade e Padre Inês, respectivamente, e segue cortando a cidade do Recife. Após passar 30 minutos na Conde da Boa Vista, volta pelo Corredor Leste-Oeste, faixa exclusiva de ônibus, recentemente inaugurada, após reforma realizada pela Prefeitura do Recife, que liga a Zona Oeste ao centro da cidade.
Apertadas, algumas pessoas permanecem de pé. O rádio, sintonizado na estação Recife FM (97.5), embala o romance do jovem casal de namorados, que se encontra nas duas primeiras cadeiras do coletivo, ao som da dupla sertaneja Bruno e Marrone: “Ficar por ficar eu não quero/ Beijar por beijar eu tô fora/ Menina vê se leva a sério/ Vê se não pisa na bola”. À parte as carícias do casalzinho, o papo animado de duas mulheres e uma ou outra conversa paralela, os passageiros seguem silenciosos, submersos nos próprios pensamentos.
O coletivo passa pela Rua Princesa Isabel, Avenida Dantas Barreto, Rua Cleto Campêlo, Avenida Guararapes e Avenida Conde da Boa Vista, onde pára nas estações Aurora, Gervásio Pires, Soledade e Padre Inês, respectivamente, e segue cortando a cidade do Recife. Após passar 30 minutos na Conde da Boa Vista, volta pelo Corredor Leste-Oeste, faixa exclusiva de ônibus, recentemente inaugurada, após reforma realizada pela Prefeitura do Recife, que liga a Zona Oeste ao centro da cidade.
“Divorciado graças a Deus”
É possível se deparar com todo tipo de gente nesse ‘carregador de vidas’, desde o menino chorando no colo da mãe ao adolescente antenado, que viaja ouvindo música no aparelho de MP3. Por isso, quando se entra no ônibus os preconceitos devem ser deixados em casa e os conceitos pré-fabricados devem ser esquecidos. Em lugares assim é que se encontra pessoas como Álvaro Pinto Monteiro Filho, que tem 52 anos, está “divorciado graças a Deus”, como ele mesmo declara, e pesa 115 quilos. Devido ao calor que faz no Recife e ao excesso de peso, que dificulta ainda mais a vida nos trópicos, Álvaro transpira demasiadamente. A roupa branca gruda no corpo. Carrega consigo uma garrafa com água e uma toalhinha branca, onde enxuga constantemente as mãos suadas, tudo para diminuir o desconforto. A imagem do homem gordo e carrancudo de voz grossa, rosto marcado pelo tempo e pelas acnes que teve quando jovem, e que exige a carteira de identificação de todos os estudantes, contrasta com o homem vaidoso, que penteia o cabelo grisalho e passa perfume durante a viagem. Álvaro não é o mais realizado de todos os homens. Não se pode dizer, sequer, que a sua vida seja pautada por alguma realização. Formado em Administração de empresas, trabalhou como bancário por mais de 20 anos, até que a empresa onde trabalhava faliu e ele se viu obrigado a atuar como cobrador de ônibus, ofício que exerce há 11 anos. Detesta ser cobrador. Diz que está pagando os pecados no exercício da profissão. E a penitência diária começa cedo, às 5h40 da manhã, e só termina às 14h, isso se não for necessário fazer alguma viagem extra.
O trânsito lento da cidade e os passageiros, que muitas vezes se revelam impacientes, fazem a rotina parecer ainda mais pesada. “O pior de ser cobrador é ter que responder às perguntas idiotas que as pessoas fazem. Uma vez uma mulher me perguntou: ‘cobrador esse ônibus vai à praia?’, eu respondi: ‘vai, moça, arrume uma tanga pra ele’. Ela ficou irritada”. Na verdade, triste não é ser cobrador, triste é a memória dos tempos de bancário. Mas apesar de tudo, Álvaro segue de pé, enfrentando os obstáculos e sorrindo, entre um intervalo e outro, porque ninguém é de ferro. E é isso que o diferencia.
Mantém-se à espreita, sem perder de vista quem entra. Já viu de tudo sentado naquela cadeira, vê de tudo todos os dias, até acabar o turno e descer do ônibus em definitivo. Naquela quinta-feira, por exemplo, viu três meninas rirem descontroladamente a bordo do coletivo, viu outros tantos meninos venderem pipoca nas ruas e correrem entre os carros, viu uma mulher pedir esmola na calçada, de mãos dadas com duas crianças, sujas e semi-nuas e viu quando, do outro lado da calçada, um grupo de hippies vendia artesanato. Presenciou também a dificuldade de uma senhora meio gordinha, de passos lentos, atravessar a rua e não pôde deixar de comentar quando ali, perto dele, um jovem rapaz não cedeu a cadeira a uma outra senhora, aparentemente tão velhinha quanto aquela.
Já cansado, após atravessar a Avenida Caxangá, e quando achou que os olhos não suportariam ver mais nada, chegou ao ponto final, na Rua Jornalista Posidônio Bastos Cavalcanti, bairro do Detran, exatamente às 13h45. A essa altura, apenas três pessoas se preparavam para descer no último ponto. E foram necessários mais dez minutos para que o próximo coletivo saísse, já com cinco pessoas a bordo. Ao volante, um homem magro, de cabelos pretos e óculos de grau.
José Roberto Lobão, o Zé, sempre quis ser caminhoneiro. Essa foi a profissão do seu avô, do seu pai e da maioria dos homens da família. Quando menino, costumava brincar com os carrinhos de madeira que ganhava do pai e se imaginar dirigindo carretas enormes. Zé não virou carreteiro, mas hoje, com 34 anos, casado e pai de uma menina, dirige ônibus e se mostra completamente apaixonado pela profissão. Ele fala alto, conta piadinhas que beiram o assanhamento e não pára de sorrir um só instante. Falar da profissão o deixa empolgado e ele começa a relatar histórias, como quando o radiador do ônibus explodiu e o deixou com o rosto todo queimado, obrigando-o a ficar três meses afastado do volante. Reclama da lentidão do trânsito, que enfrenta há sete anos, das 6h19 às 20h30 e se declara contrário à reforma realizada pela Prefeitura do Recife. Para cada mulher que entra no ônibus, Zé abre um sorriso largo. Quando entra uma morena jovem e simpática, então, ele declara: “a melhor parte da profissão é essa, quando o pessoal sobe no carro, diz obrigado e bom dia”. Continua sem parar de falar. E de sorrir. Finge que não vê a placa de “fale com o motorista somente o indispensável” e segue eufórico, quase verborrágico. Tem orgulho da profissão que exerce. Sorrisos, sorrisos, sorrisos, aos montes, porque para Zé contentamento pouco é bobagem.
E ele gosta mesmo é da Rádio ClubeFM (99.1), na qual são constantes traduções de músicas românticas cantadas por artistas internacionais. Nada mais adequado, já que ele se declara um incansável romântico. Enquanto cruza a cidade, deixando as pessoas em seus destinos, escuta a tradução de My heart you go on, sucesso da cantora canadense Celine Dion: “Every night in my dreams/ I see you, I feel you/ That is how I know you will go on”. [Todas as noites nos meus sonhos/ Eu vejo você, eu sinto você/ Isso é como eu sei que você continua].
Cada passageiro, um destino
Já passava das 15h quando Maria Aparecida, 28, entrou no ônibus lotado. Passaria despercebida no meio de tanta gente, não fosse pelo barulho do saco plástico que trazia nas mãos, pelo excesso de peso, que dificulta seu trânsito entre os outros passageiros (foi à custa de muito “com licença, senhor”, “com licença, senhora”, “tu me deixa passar?”, que chegou às últimas cadeiras do coletivo) e pelo forte cheiro oriundo do seu cabelo. Acontece que Maria é uma moça muito vaidosa e não dispensa o creme de pentear da lista de supermercado. Já se vê pelos cabelos pretos, quase molhados, presos com uma fita cor de rosa, pelo salto alto que mal sustenta o peso do corpo, pelo batom vermelho, pela blusa decotada e a sombra azul em cima dos olhos. Tudo, cuidadosamente, organizado. Maria Aparecida é empregada doméstica, acorda às 5h e vai e volta do trabalho de coletivo, todos os dias. “De manha é tranqüilo, tem pouca gente no ônibus. Ruim mesmo é agora. Os ônibus estão sempre lotados e eu, que sou gorda, sofro dentro deles”, diz. Mas apesar das dificuldades, Maria não perde o bom humor. Entre um e outro aperto, uma e outra piadinha de mau gosto por causa do físico fora dos padrões, ela segue mastigando chiclete e rindo das Ligações Perigosas, quadro da rádio ClubeFM no qual os ouvintes enviam o próprio número de telefone acompanhado de um perfil para serem divulgados na rádio, à procura de outras pessoas para se relacionarem.
- Moreno, 35 anos, procura mulheres entre 25 e 35 anos que queiram um relacionamento sério, anuncia a locutora.
“É de um desses que eu preciso, acho que vou ligar”, diz e cai na gargalhada. Maria mantém o bom humor até quando, previsivelmente, o ônibus pára. É o tal congestionamento que tira a paciência dos tranqüilos, atrasa os pontuais e, ao que parece, se repetirá por muitos dias ainda. Pelo menos enquanto Recife for essa metrópole cheia de pontes, avenidas estreitas e automóveis circulando por toda parte.
Já são 16h20 na tarde recifense. O sol ultrapassa o pára-brisa e deixa o coletivo abafado. No lado esquerdo então, onde os raios solares entram com mais intensidade, o calor é quase insuportável. Aos incomodados, resta mudar de lado. Ou fazer como a mulher negra, de estatura mediana, camiseta azul, alguns dentes faltando e uma pulseirinha de plástico colorida no braço direito com os dizeres em inglês: stop racism, que ao perceber que o motorista não a deixaria no seu destino final, gritou: “vai desceeeer!”.
E assim, entre um e outro “vai descer!”, a viagem segue. Cada destino, um passageiro, cada passageiro, uma história. Não se sabe se a cidade constrói os ônibus, que carregam um povo e sua identidade ou se os ônibus, ao carregar pessoas tão distintas, para lugares tão inusitados, constroem a cidade. A impressão que se tem é que as ruas se confundem com as pessoas e não é possível distinguir onde começa e termina, nem o que se esconde por trás das histórias peculiares dos recifenses que vão e voltam.
4 comentários:
Esse texto eu conheço
kkkkkkk
Bju
aaammmeeeiiii o bloc. É um espaço excelente para expessamos as palavras que brotam de nossas mentes inteligentes.. (modesta..)hehehe quero poer paricipa dessa explosão intelectual!!
Que viagem , viuuu!?
se eu passasse po uma dessas todo dia enlouquecia!
Tô adorando esse blog!
e duda, calma! eu vou atualizar o meu.
beiiijo Joyce!
Um deleite a leitura do “post” Caminhos incertos. Parecia-me estar preste sentindo o calor abafado, percebendo o desconforto e infortúnio de alguns, a displicência de outros mas, sobretudo, a esperança, coragem e esforço de todos. Tocou-me fundo, porém, a lembrança de Álvaro Pinto Monteiro Filho, velho companheiro e amigo dos cursos ginasial e científico.
Conhecemo-nos em 1967 no segundo ano ginasial do Colégio Arquidiocesano do Recife que, pouco depois, passou a chamar-se Colégio de Aplicação Padre Abranches da Universidade Católica de Pernambuco. Aos 11 anos, Álvaro já ostentava alguns quilos acima do que costumava ser normal para as crianças daquela época. Isso, contudo, não lhe tirava a agilidade nem o impedia de ser o goleiro valente do nosso time de futebol de salão nos saudoso campeonatos interclasses do colégio. Aluno aplicado, levava sempre consigo um maleta de couro preto enorme na qual carregava todos os livros e cadernos de todas as matérias independentemente das aulas que teria a cada dia. Desnecessário dizer que tal hábito rendia-lhe muitas burlas da parte dos demais alunos da classe.
A vaidade, essa já era também um marca indelével. Tinha sempre na mão ou no bolso um pente flamengo preto com o qual penteava sua vasta cabeleira preta vária vezes a cada aula. Não esquecia também, em algum lugar da enorme mala preta, um frasco de perfume ou água de colônia com a qual frequentemente banhava-se mesmo durante as aulas a exceção, é claro, das aulas de português do professor Fernando Castin que detestava as preferência aromáticas de Álvaro e, enérgico, um dia sentenciou: "Álvaro, quando trouxer os seus perfumes de feira, por favor não os ponha em minhas aulas." Parece, também, não ter havido mudanças quanto ao hábito de ter sempre consigo uma toalhinha para o excesso de suor, nem quanto a sua preferência por vestir branco.
Estudamos juntos da segunda série ginasial até a conclusão do terceiro científico – seis anos – quando, em função das escolhas acadêmicas de cada um, seguimos caminhos diferentes. O grupo, na época muito unido, Álvaro Pinto Monteiro Filho, Jorge Luis Guerra Jales, Marco Antônio Coimbra Barbosa e eu mesmo, Roberto Aráujo de Lucena, perdeu contato mas alegra-me, mesmo tanto tempo depois e apesar da distância – vivo hoje em Blumenau, Santa Catarina – tomar conhecimento, por meio desse outro formidável veículo “reunidor de vidas”, de que um grande e saudoso amigo vive e luta com saúde, garra e coragem.
Amigos, caso leiam esse post, meu e-mail é roberto.lucena@crosscultural.com.br. Escrevam.
Roberto Araujo de Lucena
Blumenau, SC
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