Passava das 14h quando cheguei ao Box 198, no Mercado de São José, centro do Recife, para me consultar com Lima da Luz, o “apóstolo do bem”, como se autodenomina. Lima atende no mercado há 14 anos, das 9h às 16h. Joga cartas, tarô, búzios e se diz terapeuta espiritual ou consultor de auto-ajuda, pois fornece “uma orientação baseada na doutrina espírita que visa esclarecer, evoluir e melhorar a vida da pessoa”. A sala de espera é ali mesmo, no corredor estreito do mercado. E dos quatro banquinhos disponíveis, dois já estavam ocupados (por mulheres jovens e bem vestidas) quando eu cheguei. Vou pagar R$ 10,00 para saber do futuro.
Mais estranho que estar ali, porém, foram as sensações que tive enquanto aguardava a minha vez de ouvir o “apóstolo do bem”. Fiquei ansiosa, nervosa e até com uma dose de medo. É que o desconhecido assusta, por mais que se diga não acreditar nele. Do lado de fora, um quadro com a imagem de São Cosme e São Damião serve de porta para o box. Para passar o tempo, leio, atentamente, as normas de trabalho do meu consultor: Aqui trabalho com a mediunidade e Jesus. Não faço nenhum tipo de trabalho, simpatias, rituais ou adivinhação. Não prego nenhuma crença, seitas, dogmas ou superstições, mostro o caminho do cristianismo redivivo. Todos os meus serviços são baseados na doutrina dos espíritos e na lei de causa e efeito, ação e reação, amor, paz e caridade. Jogo búzios, cartas e tarô, para receber orientações dos espíritos superiores, que nos mostrarão o melhor caminho a seguir. Aqui só faço o bem e a caridade, fora destas normas não atendo. Disse Jesus: se tiveres fé, tudo é possível.
Chega a minha vez de ser atendida. Respiro fundo e vou. Sou recebida por um homem perfumado, de avental branco, voz rouca, olhos amendoados e barba por fazer. No crachá que trás no pescoço, sua identificação oficial, com foto e nome, para que não reste dúvidas sobre a seriedade do trabalho. Ele aponta uma cadeira de plástico branca para que eu sente. Assim o faço. O lugar é pequeno, escuro e inóspito. A cor rosa das paredes quase desaparece por trás de inúmeras prateleiras amarelas que comportam, cada uma, além de imagens de entidades católicas, do umbanda e do candomblé, uma infinidade de extratos de ervas, que Lima vende aos interessados. Há extratos para todos os tipos de necessidades. Basta banhar-se e pronto, problema resolvido. Os mais vendidos são: “Hei de vencer”, “Dezata nó” e “Desmancha tudo”. O cheiro de insenso é quase insuportável. Além de apertado, o lugar é quente e o calor é amenizado apenas por um ventilador, que não pára de trabalhar nem por um instante. Na única parede vazia do box, um telefone fixo, certificados de participação em congressos de esoterismo e fotos do próprio Lima. Mais três aparelhos móveis, todos funcionando, ficam em cima da mesa. Percebo o quanto o meu consultor é procurado. Sinto-me acuada.
Antes de tudo, Lima quer saber o meu nome. Respondo e permaneço calada. Ficar calada foi a estratégia que adotei. Quanto menos informações concretas ele tivesse sobre mim, melhor. O consultor pergunta, então, qual jogo quero que faça, cartas, búzios ou tarô. Peço que me sugira. Em seguida, ele pergunta sobre que assunto me interesso mais em saber: amor, dinheiro, saúde, profissão, família. Eu respondo prontamente: amor. “Pois então vou jogar búzios, é mais indicado para saber de amor. Mas é possível saber das outras áreas também”, diz. Eu aceno com a cabeça em sinal de aprovação. Coloca as conchinhas nas mãos e pede: “Pense em Jesus”. Tento esconder o nervosismo e não consigo pensar em nada. Meu olhar fica centrado no movimento rápido que o “apóstolo do bem” faz com as mãos fechadas, balançando as conchinhas. Ele muda o timbre da voz e começa a orar num dialeto africano. Joga os búzios na mesa e passa a fazer a análise. Difícil acreditar que a minha existência possa se revelar ali, naquele amontoado de conchas, ora abertas, ora fechadas. Difícil acreditar que a posição delas coincide com os rumos que podem tomar a minha vida e que aquele homem moreno, de estatura mediana e olhar duvidoso pode saber alguma coisa das minhas dores, alegrias ou das escolhas que eu posso vir a fazer.
Mesmo sem acreditar, baixo a guarda e deixo que ele conte o que os búzios revelam. Começa o jogo de palpites e supostas adivinhações segundo o qual o meu futuro será repleto de realizações. O sucesso me espera. Minha competência não tem limites. Serei uma profissional invejável. Ganharei muito dinheiro. Qualquer pessoa que acredite, por pouco que seja, nesse tipo de jogo, sairia dali extremamente contente. E voltaria outras vezes. Descubro, então, aquela que talvez seja a maior tática do meu consultor: dizer coisas boas. Sempre generalidades, mas generalidades do bem. A fala alta e apressada do adivinho explica: “Na vida nós passamos por duas Eras, a Era do Karma e a Era do Equilíbrio. Você está na Era do Equilíbrio, logo, as coisas só tendem a dar certo na sua vida”. Com uma caneta ele vai separando as conchinhas e dizendo o que vê em cada uma delas: “Você trabalhando. Você tendo sucesso. Sua vida progredindo”. Espero ansiosa por algo realmente revelador, mas uma sucessão de repetições sai da boca do adivinho.
Ele continua: “Seu corpo é fechado. Nossa Senhora da Conceição lhe protege, nenhum tipo de trabalho, macumba ou bruxaria pega em você”. Passa para o campo amoroso: “Amor do passado voltando. Tem esse?”, pergunta como quem espera uma afirmação para continuar com as suposições. Respondo que não. Ele insiste e diz que não vale a pena, que passado é passado e me aconselha a virar de vez a página. Afirmo que seguirei o conselho. “Amor do presente gosta de você e está bem intencionado. Tem esse?”, repete a pergunta. Não tem amor no presente, estou solteiríssima. Mas resolvo mentir. Quero ver a reação do meu consultor. Respondo que sim. Ele pede, então, para que eu não me apegue e vá com calma. Eu insisto: “Mas se ele gosta de mim, por que não devo me apegar?”. Sua resposta é a mais generalista possível, diz que na vida não devemos nos apegar a nada porque, na verdade, nada temos de nosso. Assim, se um dia o amor acabar, não sofreremos tanto. Finjo-me de convencida e deixo que ele continue.
“Pretende viajar a trabalho? Eu vejo uma viagem de trabalho para você aqui”. Qualquer pessoa, independentemente da profissão, pode, alguma vez na vida, precisar fazer uma viagem a trabalho. Além do quê, quem não gostaria de viajar? O meu consultor é um homem esperto. Descubro na ‘viagem de negócios’ mais uma de suas generalizações. Digo que pretendo viajar sim e ele segue repetindo que serei uma brilhante profissional e as portas do sucesso estão abertas para mim.
Passados cerca de dez minutos, estamos quase no fim da consulta quando o “apóstolo do bem” diz que tenho direito a fazer cinco perguntas extras. Se houver algo que os búzios não revelaram, mas que eu queira saber, devo dizer agora que ele vai me responder. As unhas grandes do adivinho, então, arrastam seis búzios que logo serão, novamente, chacoalhados entre as suas mãos. Agora, um número muito menor de conchas será responsável por responder a perguntas, teoricamente, mais concretas. É impossível conter a descrença. Ainda sim, sigo incólume no meu papel de consulente.
Pergunto sobre o futuro e ele revela que casarei, serei uma mulher independente, terei minha casa própria e serei mãe de dois filhos, possivelmente, um casal. Logo eu, que tenho sérias dúvidas sobre a minha vocação para a maternidade. Quando a questão é a família, descubro que sou protegida por Nossa Senhora das Graças e que ela faz com que corra tudo bem comigo e com os meus parentes. No entanto, minutos antes o meu consultor havia dito que Nossa Senhora da Conceição é a minha protetora. Quero acreditar que uma moça de sorte, talento e sucesso garantido, como ele disse que sou, só pode mesmo ser protegida por mais de uma entidade. Pergunto sobre o ciclo de amizade e ele me pede para ter cuidado. Há muitos amigos invejosos, não devo confidenciar meus segredos a ninguém. Digo que vou seguir o conselho e resolvo fazer perguntas mais concretas. Questiono se o meu futuro namoro dará certo. Ele responde que sim, que o rapaz é bem intencionado e vai fazer de tudo para ficarmos juntos. Vale ressaltar que não há namorado algum. Tudo não passou de invencionice da minha cabeça. Assim sendo, resolvo revelar-lhe um segredo:
- É o seguinte, Seu Lima, esse meu quase namorado estava comprometido quando o conheci e até bem pouco tempo ainda estava enrolado com outra pessoa.
- Você quer saber se terminou? – diz ele sem esperar que eu conclua a frase.
- Isso mesmo, afirmo.
Joga as seis conchinhas na mesa, analisa-as rapidamente, olha para mim e diz: “Terminou, ouviu? Terminou. Ele não está mais com ela”. Faço cara de satisfeita, tento conter o riso e agradeço. Fim da consulta. Se existisse, de fato, um pretendente, certamente eu sairia do box do Lima contente e cheia de esperança. Possivelmente, foi assim que outras mulheres saíram de lá. Faço o pagamento ali mesmo, antes de levantar-me da cadeira branca. Entrego-lhe R$ 20,00 e antes de devolver o troco, ele abençoa o dinheiro. “Nunca mais vai faltar uma nota de vinte na sua carteira”, afirma. Saio calada, da mesma forma que cheguei. Sou a sexta cliente do dia. Ele atende cerca de 12, diariamente. Um rendimento de R$ 1.200,00 por semana ou R$ 4.800 mensais. Nada mal para quem trabalha naturalmente, sem nenhum tipo de esforço, já que o poder da previsão é um ‘dom divido’, privilégio de poucos
Antes de sair em definitivo, olho a barraquinha de adivinhações mais uma vez. É incrível como o desconhecido mexe com a imaginação das pessoas. A impressão que se tem é que acredita nas previsões do Lima quem já foi disposto a acreditar. São apenas suposições que só convencem quem quiser ser convencido. E já há outra mulher esperando para ser atendida. Mais uma pronta para descobrir como escapar dos labirintos do futuro. Aperto a mãe do consultor e me despeço. Mas não sem antes ler um último dizer: “Por tudo que você é, por tudo que você faz e pelo que sou quando estou com você, muito obrigado!”.
4 comentários:
4.800 mensais?
ok... definitivamente, descobri meu destino vocacional.
Olá, Maria Eduarda! Fiquei imensamente feliz em saber de sua visita ao blog e conhecer o trabalho realizado com a Joyce (oi, Joyce, também...). Incrível como aqui, aí, lá, em todo lugar existem pessoas com boas histórias para contar. Voltarei mais vezes, como quem passa para tomar um café e prosear sobre a vida (mesmo que alheia)
"...Amor do passado vaoltando...", interessante isso!!!! rsrs
"...amor do passado voltando...", interessante isso!!! rsrs
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