Quem vê a figura gorda de Renato Ramos subindo as ladeiras de Olinda pode apostar que o corpo pesado não permitirá que ele chegue ao final. Muito menos que subir e descer ladeiras é uma tarefa comum para ele, ato que repete cotidianamente, já que mora no alto de uma delas. É no alto de uma delas, aliás, que ele fabrica, manualmente, alfaias e abês, instrumentos de percussão utilizados essencialmente por grupos de Maracatu. É lá no alto que ensina jovens e adultos a tocarem esses instrumentos, se apresenta com o Mojubá (que significa ‘eu te abençôo’ em Iorubá, um dialeto africano), grupo que fundou e costuma sentar na calçada, bem à vontade, de bermuda florida e chinelo de dedo, para ver as pessoas passarem.
Além de fabricar os instrumentos, Renato ensina a quem se interessar em manuseá-los. Para cada aluno que freqüente, duas vezes por semana, as oficinas de música que promove ali mesmo, no quintal de sua própria casa, o mestre cobra R$ 60 mensais. O preço muda de acordo com a participação e o interesse do aluno. Tudo é negociável. Mas nenhum valor parece pagar o aprendizado transmitido pelas mãos negras do homem gordo. Aquelas mãos trabalham incansavelmente. E tem serviço o ano inteiro. Na época em que as oficinas estão meio paradas, ele trabalha fabricando instrumentos para o Carnaval. Acontece que a festa da carne começa cedo para quem ganha a vida com ela. “As encomendas grandes para o Carnaval começam a chegar em Junho, mas desde Março eu comecei a fazer instrumentos para a folia”, diz enquanto raspa com uma faquinha sem cabo uma cabaça, que logo se transformará num abê.
Nas horas vagas, Renato participa das reuniões de um terreiro de Candomblé, no bairro de Águas Compridas. Lá ele toca para os orixás. É quando trabalho e paixão misturam-se à crença. E então o homem despretensioso, de barba por fazer, que gosta de sentar na calçada para acompanhar o movimento das ruas, se concentra. Porque religião é coisa séria. E no momento do rito, o tambor deixa de ser instrumento de percussão para tornar-se instrumento de culto. Tudo deve ser feito com amor, com respeito.
Renato tinha apenas dez anos de idade quando tirou som de uma alfaia pela primeira vez. Hoje, aos 31, lembra desse dia com clareza e demonstra um orgulho imenso de poder viver exclusivamente do que mais gosta. Viver “mantendo a tradição”, como diz. É que ‘manter a tradição’ é, para Renato, a missão maior. Por isso, não faz parte de grupos de maracatu estilizado, aqueles em que pode haver interferências de outros ritmos e toques inventados. Quem participa de suas oficinas só aprende os toques do maracatu tradicional, aquele tocado pelos reis africanos, dos quais o mestre descende. Nada de invencionices. Nada de modernidade ou qualquer uma dessas coisas que, para Renato, são apenas o reflexo das exigências do mercado.
É assim que ele pensa. Tal posição pode até parecer radical, coisa de quem não se acostumou com o hibridismo característico dos tempos pós-modernos e tem dificuldades de adaptar-se ao novo. Talvez seja mesmo. Mas para aquele homem, que desde menino trabalha com isso, tira disso o sustento e carrega o som do instrumento como símbolo de religião, é um posicionamento perfeitamente cabível. O único a ser tomado. Porque cultura é história. E, segundo ele, é preciso manter a tradição para que a história não se apague, a cultura não se descaracterize e o Maracatu não se perca nessa descaracterização. Seria deixar escorrer uma parte de suas crenças e convicções. E o radicalismo, na verdade, é o receio que o homem-instrumento tem de perder a identidade, deixar esvair a própria história.
Além de fabricar os instrumentos, Renato ensina a quem se interessar em manuseá-los. Para cada aluno que freqüente, duas vezes por semana, as oficinas de música que promove ali mesmo, no quintal de sua própria casa, o mestre cobra R$ 60 mensais. O preço muda de acordo com a participação e o interesse do aluno. Tudo é negociável. Mas nenhum valor parece pagar o aprendizado transmitido pelas mãos negras do homem gordo. Aquelas mãos trabalham incansavelmente. E tem serviço o ano inteiro. Na época em que as oficinas estão meio paradas, ele trabalha fabricando instrumentos para o Carnaval. Acontece que a festa da carne começa cedo para quem ganha a vida com ela. “As encomendas grandes para o Carnaval começam a chegar em Junho, mas desde Março eu comecei a fazer instrumentos para a folia”, diz enquanto raspa com uma faquinha sem cabo uma cabaça, que logo se transformará num abê.
Nas horas vagas, Renato participa das reuniões de um terreiro de Candomblé, no bairro de Águas Compridas. Lá ele toca para os orixás. É quando trabalho e paixão misturam-se à crença. E então o homem despretensioso, de barba por fazer, que gosta de sentar na calçada para acompanhar o movimento das ruas, se concentra. Porque religião é coisa séria. E no momento do rito, o tambor deixa de ser instrumento de percussão para tornar-se instrumento de culto. Tudo deve ser feito com amor, com respeito.
Renato tinha apenas dez anos de idade quando tirou som de uma alfaia pela primeira vez. Hoje, aos 31, lembra desse dia com clareza e demonstra um orgulho imenso de poder viver exclusivamente do que mais gosta. Viver “mantendo a tradição”, como diz. É que ‘manter a tradição’ é, para Renato, a missão maior. Por isso, não faz parte de grupos de maracatu estilizado, aqueles em que pode haver interferências de outros ritmos e toques inventados. Quem participa de suas oficinas só aprende os toques do maracatu tradicional, aquele tocado pelos reis africanos, dos quais o mestre descende. Nada de invencionices. Nada de modernidade ou qualquer uma dessas coisas que, para Renato, são apenas o reflexo das exigências do mercado.
É assim que ele pensa. Tal posição pode até parecer radical, coisa de quem não se acostumou com o hibridismo característico dos tempos pós-modernos e tem dificuldades de adaptar-se ao novo. Talvez seja mesmo. Mas para aquele homem, que desde menino trabalha com isso, tira disso o sustento e carrega o som do instrumento como símbolo de religião, é um posicionamento perfeitamente cabível. O único a ser tomado. Porque cultura é história. E, segundo ele, é preciso manter a tradição para que a história não se apague, a cultura não se descaracterize e o Maracatu não se perca nessa descaracterização. Seria deixar escorrer uma parte de suas crenças e convicções. E o radicalismo, na verdade, é o receio que o homem-instrumento tem de perder a identidade, deixar esvair a própria história.
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