segunda-feira, 16 de junho de 2008

Pelas águas do Recife

Diariamente passam por cima de suas águas adultos, crianças, vendedores ambulantes, comerciantes e letrados. De tanto observar a vida que passa num fluxo intenso, ele parece que se acostumou à situação de coadjuvante da história do Recife. Tornou-se um senhor velho e desdentado, que muitos só sabem da existência quando um tal de Catamarã corta suas águas cheio de gente de fala “esquisita”. Faz jus ao nome que em certa ocasião lhe deram, “Cão sem plumas”. O tal cão anda mesmo sem forças para latir, parece pedir com aqueles olhos tristonhos que alguém o faça o mais rápido possível.
É curioso é imaginar que no século XIX o mesmo Rio Capibaribe cedia suas águas para banhos aos domingos de famílias da Várzea, Poço da Panela, Ponte de Uchôa e Monteiro. O geógrafo Hugo Falcão, da UFPE, que escreveu uma tese acadêmica sobre o Rio Capibaribe na obra de João Cabral de Melo Neto, explica a importância que o Capibaribe tinha e/ou tem para o Estado.


1.Por quê falar do Capibaribe na sua tese?
Falar do rio saiu naturalmente, pois o ponto de partida na realização da monografia foi achar aspectos geográficos no poema morte e vida severina, o titulo da monografia era “As impressões geográficas no poema morte e vida severina- Auto de natal pernambucano”. Nesse poema J.C. de M. N dá uma aula de geografia no que concerne a estrutura agrária, conflitos por terra, desigualdade social, fome, indústria da miséria, entre outros. O rio foi abordado na monografia e teve um capitulo especial devido à sua importância para o personagem Severino. Severino como muito imigrante que vem tentar a sorte na cidade grande tem o Capibaribe como companheiro, companheiro de um sonho que é melhorar de vida. Não poderia falar do poema Morte e vida severina sem descrever o rio e sua importância.

2.Qual a importância do Rio para Pernambuco?

O Capibaribe tem uma relevante importância para Pernambuco tanto no que se refere aos aspectos econômicos como há algum tempo atrás ao lazer. Os engenhos surgiram margeando o Capibaribe devido à facilidade de se transportar as mercadorias como também para a utilização das suas águas para movimentar o engenho. O rio teve e tem importância significativa para a economia do Estado, porém essa importância tem um preço, e o preço pago pelo rio é lamentável, triste e parte o coração. No período dos engenhos ao mesmo tempo em que servia para dar água, também servia como esgoto, como disse Gilberto Freyre “O monocultor rico do Nordeste fez da água dos rios um mictório”, ao longo dos anos o Capibaribe foi se transformando e passou de um rio de lazer para grande receptor de lixo. Até os anos de 1920, o Capibaribe era o coração da capital e os recifenses costumavam veranear no Poço da Panela e o rio exercia um papel importante no lazer dos abastardos da época. Hoje a situação é bem diferente. Matadouros de animais, lixões, esgoto sem tratamento, dejetos de fábricas de tecidos em Toritama e em Santa Cruz do Capibaribe é o que o rio vem recebendo e parece que vem perdendo a batalha para o homem que não dá a mínima para a importância ambiental, histórica, econômica e social do rio.

3.O que você concluiu na tese sobre a relação que João Cabral faz constantemente entre o homem e o Rio?

O homem se apoderou das margens do rio, passou a utilizá-lo como depósito de lixo, então o que podemos esperar de uma relação dessas? Esperar a degradação total do rio. Ver a estátua de J. C. de M. N na rua da aurora contemplando o Capibaribe é muito bonito, mas os pernambucanos de um modo geral não observam o rio de maneira apaixonada como João Cabral ou mesmo Manuel Bandeira observaram, observam o rio apenas como algo na paisagem que não tem importância ou se tem, é pouca. Um ponto positivo no que se refere a preservação do Capibaribe é o catamarã-escola que a prefeitura da cidade realiza com crianças da rede municipal, isso é importante, pois é com conscientização popular que vamos ver o rio com o mesmo carinho que os poetas viam.

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