segunda-feira, 16 de junho de 2008

Sou brasileiro, sei sorrir

São 46 pavilhões, 561 boxes, 80 compartimentos externos e cerca de trezentas pessoas trabalhando naquele que, para muitos, é um verdadeiro labirinto que aos poucos vai se permitindo descobrir. Como se as opções de produtos comercializados não fossem suficientes, não raro encontramos vendedores ambulantes que logo se perdem no emaranhado gente que flui tão rapidamente.
É na ebulição do Mercado de São José que encontramos um senhor tranqüilo, passos calmos e jeito humilde, varrendo cuidadosamente os corredores daquele lugar. Inaldo Raimundo de Oliveira, 47, há um ano desempenha com esmero e alegria o seu trabalho.
As 12 horas intensas de serviço, intercaladas em um dia de folga, para muitos poderiam ser desgastantes. Para Inaldo, são agradáveis momentos em que conversa com os amigos e interage com os comerciantes que tanto o estimam. Nenhuma reclamação a fazer do trabalho, muito menos do pouco mais de um salário que ganha e que diz ser suficiente para ajudar a mãe que mora com ele numa casinha em Santo Amaro.
Foi o desemprego que impulsionou o técnico de refrigeração para o ramo da limpeza. “O hotel onde eu trabalhava faliu, aí fui procurar emprego na empresa Setel e hoje estou aqui no Mercado por conta desta gestão”, conta Inaldo, que parece estar muito bem acomodado no cargo de servente. Mesmo sabendo da sua condição de instabilidade empregatícia, que é a de tantos outros brasileiros, o também letreiro de muros não se dá por vencido e pretende trabalhar bastante as próximas eleições ilustrando os muros do Recife com suas letras e números coloridos.
Se todos tivessem a garra de Inaldo e a oportunidade que ele tem de trabalhar numa das construções mais belas do Recife, fariam o que ele faz sempre quando a alegria no falar supera a timidez. Estampariam um largo sorriso no rosto. Nem mesmo a cegueira de um dos olhos o faz desanimar, pelo contrário, Inaldo sabe muito bem usar a visão que tem para observar as histórias que acontecem diariamente no Mercado. A mais recente delas na semana passada quando Marcone Ferraço, o vilão da novela Duas Caras, foi lá gravar suas cenas finais. Outro dia que lembra com orgulho foi quando viu a Rainha dos Baixinhos gravar cenas do seu programa ali mesmo. Mas as figurinhas carimbadas do lugar são Reginaldo Rossi e Alcymar Monteiro que não poderiam deixar de participar dessa lista do fã Inaldo, que os ouve sempre nas folgas de fim de semana.
O fato de estar sempre no ponto de encontro de todos é motivo de orgulho para Inaldo, apesar de passar despercebido por muita gente que não consegue enxergar a riqueza histórica que aquele homem tem para o Mercado de São José. A falta de olhares para Inaldo é medida no instante da surpresa que teve quando me aproximei para me apresentar e pedir que cedesse um instante de seu tempo para iniciarmos uma conversa.

- Desculpe incomodar, posso falar com um senhor um instante?
- Quem, Eu?

Logo que se empolga com minhas curiosidades, o encarregado da limpeza solta suas sábias palavras de apaixonado por sua terra. “Vir ao Recife e não visitar o Mercado de São José é como ir ao Rio de Janeiro e não ver Cristo Redentor”, compara Inaldo.
No meio dessa gente toda e no vai e vem do Mercado, surgem duas colegas de trabalho e Inaldo não pensa duas vezes em interromper a conversa para cumprimentá-las. Uma das mulheres é Ângela de Amorim, que brinca com a situação de ver o amigo sendo entrevistado e revela uma de suas facetas até então desconhecidas. “Cuidado moça, ele é namorador. Comigo já tentou, mas eu só saio com ele depois que meu marido morrer”, brinca a amiga.
Ângela só está ali há seis meses, mas já tem motivos de sobra para sorrir. De tudo já viu. Menino pequeno, “gringo” falando esquisito, cantador se dando bem com turista “mão aberta”, e até madame de salto alto se consultando com Lima da Luz. O que poucos sabem é que aquele sorriso disfarça um outro lado de Ângela, a batalhadora que acorda cedo para dar conta dos dois filhos, trabalhar e correr para a escola à noite, na intenção de concluir o ensino médio. Diferente do amigo Inaldo, seria feliz trabalhando em qualquer lugar onde lhe pagassem bem, apesar de demonstrar sabedoria ao reconhecer a importância do seu trabalho para a comunidade. “O que eu faço é muito importante para todos, principalmente para o Estado, pois o foco do Mercado são os turistas, e para que eles voltem precisam encontrar o lugar limpo e organizado. Não é uma questão de eu ganhar mais por isso, é uma maneira de dar exemplo para as pessoas sem educação que jogam lixo em qualquer lugar”, diz a servente.
A bela mulher de 32 anos, dos quais 14 foram dedicados ao trabalho, mostra-se consciente da sua condição e focada em um futuro melhor para a família. Quer crescer, ganhar mais, dar boa educação aos filhos e ajudar o marido a comprar uma casinha em Monsenhor Fabrício, subúrbio do Recife. Mas seu sonho maior não é o de muitos nordestinos. Partir rumo a São Paulo, por exemplo, não faz parte dos anseios daquela mulher que gostaria mesmo é de buscar abrigo da violência numa pacata cidade do interior, Pombos ou Nazaré da Mata.
São tantas as vidas que se cruzam naquele mundo chamado Mercado, que por muitas vezes deixamos as nossas para observar o desfile de histórias que ora são encantadoras, surpreendentes ou mesmo simples como a gente do mercado. Entre tantas histórias convidativas daquela tarde, a que me chama mais a atenção é a de Inaldo, o assalariado que comprou a idéia de “vestir a camisa” do Mercado. Vestir a camisa de qualquer trabalho, pois quando há dedicação no que ele e tantos outros Inaldos fazem, não importa se varrendo o chão ou salvando vidas, a possibilidade de sorrir aquele brasileiríssimo sorriso é muito maior.

3 comentários:

Anônimo disse...

O mercado tão poético e plural, encontrou no seu texto pacional e apaixonante a representação mais importante do Mercado de São José, o povo, parabéns pela sensibilidade jornalística...

PE na Roda disse...

Parabésn.. kero ser assim quando crescer.. hehe
mt bom o texto, mts vezes em um simples olhar podemos decobrir o mundo...

Anônimo disse...

Obrigada pessoas queridas pelo apoio. Ficamos felizes com as visitas de vocês!

bjão